Estados Unidos da Amnésia

Tim Robbins fala pausadamente, com voz grave, ponderando a cada momento as palavras que está prestes a dizer. Numa sala de hotel em Los Angeles, o ator de Mystic River, Shawshank Redemption, The Brink olha para os smartphones em cima da mesa e anda para trás no tempo. "Penso sempre no que costumava ser a comunicação antes dos telefones", diz. "Era o bar, o barbeiro, uma comunidade que lidava com as diferenças cara a cara." Robbins vai fazer 60 este ano, tal como o personagem Greg Boatwright, que interpreta na nova série da HBO Here and Now. Em muitos pontos de vista, partilha da frustração dele: um filósofo que passou a vida inteira a lutar por um mundo melhor e chega a 2018 sem reconhecer o seu país, a sua sociedade, as facções que o rodeiam.

A ironia destes tempos é que as pessoas têm ferramentas com um poder de amplificação sem precedentes, mas a divisão é cada vez maior. "Se usássemos a energia coletiva das pessoas que vão para o Twitter todos os dias escrever em oposição a isto e a aplicássemos em voluntariado, estaríamos muito melhor", desabafa. Não é tanto uma crítica aos justiceiros das redes sociais como é um reconhecimento de que passámos a alimentar-nos do nosso próprio eco. As pessoas sentem-se com poder porque as suas vozes estão a ser ouvidas, sem perceberem que quem as ouve já concorda com elas. "O que eu gostava que as pessoas percebessem é que essa voz é essencial no imediato, no cara a cara, no contacto com outras pessoas", argumenta.

A teoria de Tim Robbins é de que perdemos a capacidade de discutir as diferenças pessoalmente porque as câmaras de eco impedem que partilhemos lugares comuns.

"Lembro-me desta conversa recorrente na minha juventude: "não concordo contigo, mas deixa-me pagar-te uma cerveja"," recorda o ator. Talvez esta visão seja romantizada, porque tendemos a olhar para o passado com nostalgia e pensamos naquilo que se perdeu sem dar a mesma importância ao que se ganhou. Mas o que Robbins diz faz sentido à luz do endurecimento das trincheiras políticas e sociais a que assistimos na última década em tantas partes do mundo. Nos Estados Unidos, ele fala de uma divisão semeada e cultivada nos últimos trinta anos, financiada por gente rica com uma agenda política específica. "Estou a falar do Rush Limbaugh, [Sean] Hannity, Fox News, rádio de direita", detalha, referindo figuras polarizadoras que estão no ar há muito tempo com um discurso inflamado e tendência para distorcer factos. Robbins, que vive em Nova Iorque, recorda que após o 11 de Setembro atravessou a América de carro para voltar a casa e ficou impressionado com a quantidade de estações de rádio de direita radical que encontrou pelo caminho. "Era propaganda, eram mentiras. Fazes isso durante trinta anos e tem efeito; as pessoas vão votar em candidatos que não as vão ajudar."

Robbins fala de tácticas clássicas de dividir e conquistar, uma forma de as elites porem os elementos das classes desfavorecidas uns contra os outros. Ele parece ignorar o progresso que esta conectividade omnipresente permitiu fazer - alguma vez haveria movimentos #MeToo antes das redes sociais? Por outro lado, tem razão quando diz que perdemos a capacidade de nos conectarmos como antes, ao acaso, olhos nos olhos. É tudo pré-programado, planeado, filtrado pelo Google. A internet conta-nos os segredos das pessoas antes de lhes darmos um aperto de mão. Sabemos que alguém se posiciona do outro lado da barricada olhando para os "gostos" no Facebook, e se calhar nem lhe damos oportunidade de expressar a sua visão. Os compartimentos têm pouco espaço para serem desafiados, e o que ocorre é um erigir de muralhas virtuais: nós versus eles. Se és do Benfica, desliza para a esquerda. Se votaste em Trump, não podemos ser amigos.

"Olho para o mundo, nem sequer para o mundo, aqui, agora, e tudo o que vejo é ignorância, ódio, terror, raiva. Nós perdemos, pessoal. Nós perdemos." O discurso torturado de Greg Boatwright é um dos momentos mais marcantes do primeiro episódio de Here and Now, que estreou no fim de semana e em Portugal passa no TVSéries. Greg encarna este desencantamento de forma confusa, uma característica que se sente em todas as personagens da série escrita por Alan Ball, o criador de Sete Palmos de Terra e Sangue Fresco. A intenção não é levar a uma conclusão específica; é fazer questionar.

Robbins recorda que, quando se opôs à invasão do Iraque em 2003, foi apelidado de apoiante de terroristas. Na altura, opôr-se à guerra era ser antipatriótico, como descobriram as Dixie Chicks quando afundaram a sua carreira por criticarem George W. Bush. Treze anos depois, uma das grandes críticas a Hillary Clinton foi ela ter votado a favor da guerra, como se o país tivesse sido acometido de uma amnésia selectiva. Este ano, a taxa de aprovação de George W. Bush disparou para 60%. "Mas que raio?", questiona Tim Robbins. "Celebramos o falhanço neste país. Não olhamos para trás da cortina." Here and Now quer que se olhe atrás das cortinas e por baixo dos tapetes. Que o país não seja, como lembra Tim Robbins citando o controverso Gore Vidal, os Estados Unidos da Amnésia.

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