A última galáxia

A cena parecia saída de um filme de ficção científica. À hora de jantar, com o azul desmaiado a caminho da escuridão da noite, o céu de Los Angeles foi rasgado por um objeto voador que gerou um rasto branco abaulado. "Estão a ver isto?!", perguntavam amigos por mensagens. Condutores paravam nas bermas para filmarem o acontecimento inesperado. Havia gente nas janelas, de olhos arregalados, celebridades nos seus montes de Hollywood a assistirem, estupefactas, ao objeto gigante que atravessava a Califórnia. Foi um foguetão Falcon 9, lançado pela SpaceX, e só Elon Musk sabe porque é que não avisou ninguém de que isto estava para acontecer. O serviço de emergência recebeu centenas de chamadas, porque muitas pessoas acreditaram que estavam a assistir a um ataque. No Twitter, um utilizador resumiu a coisa da forma mais eloquente: "A SpaceX tem de dar melhores avisos públicos Não sabia se isto era um foguetão, extraterrestres, o Pai Natal ou a Coreia do Norte." Podia ter acrescentado a frota dos Rebeldes ou Kylo Ren atrás deles.

Precisamente nesta semana ficou a saber-se que o Pentágono gastou 22 milhões de dólares num programa de investigação sobre objetos voadores não identificados, conhecido como Advanced Aerospace Threat Identification. O programa durou cinco anos e foi descontinuado em 2012, mas os fundamentos do Departamento de Defesa e até alguns vídeos que foram publicados, mostrando militares americanos embasbacados ao encontrar alguns destes objetos, geraram tremenda reação pública. Quando Elon Musk lançou o Falcon 9 a dois dias da véspera de Natal, estava tudo pronto para acreditar num Dia da Independência a sério. Ou nos Ficheiros Secretos.

Dizer que as sensibilidades estão exaltadas neste momento é um eufemismo. A própria guerra entre fãs e críticos de cinema sobre Star Wars: Os Últimos Jedi mostra como está difícil de separar arte, realidade, política e exploração espacial. As diatribes mais musculadas contra o episódio VIII da saga baseiam-se na escolha de personagens inusitadas para os papéis principais e o fim do caminho para os heróis da trilogia original. O legado de Luke Skywalker e da Princesa Leia será apenas um apontamento no futuro de Star Wars, e quem está agora na linha da frente da Resistência são mulheres e personagens não brancas (negros, asiáticos). Um choque para muitos, que viram nestas decisões a influência maligna da esquerda liberal, que clama por maior diversidade em Hollywood. Uma vitória para quem quer ver o mundo real, que é cheio de cores e raças diferentes, plasmado na saga espacial mais influente de todos os tempos.

O que torna o regresso de Star Wars ainda mais marcante neste momento, em que Elon Musk lança foguetões enquanto trabalha num sistema espacial para colonizar Marte, é que há uma analogia clara entre as batalhas galácticas e a situação política e social que se vive. É curioso que haja fãs a dizerem que vão boicotar a saga porque esta cedeu às pressões do politicamente correto e decidiu pôr mulheres e minorias na ribalta. Serão militantes conservadores? Etnonacionalistas? E se sim, não veem a ironia? A Guerra das Estrelas conta literalmente a história de uma República capturada por um ditador fascista que quer aniquilar os últimos focos de resistência na galáxia. É uma saga política, por natureza. Quase premonitória, se nos lembrarmos do episódio III, quando a declaração da Nova Ordem transforma a República num Império e Padmé Amidala declara: "Então é assim que a liberdade morre, com aplausos estrondosos." A Primeira Ordem, que sucedeu ao Império Galáctico, não consegue exterminar a resistência pela intervenção final de Luke Skywalker. Acreditem se quiserem que este sentimento é quase palpável na sociedade americana. Um ano depois da tomada de posse de Donald Trump, e com uma reforma fiscal que vai beneficiar sobretudo os mais ricos e as grandes empresas, sente-se no ar o cheiro a resistência. O Centro para o Controlo de Doenças pode ter sido proibido de usar expressões como "baseado em ciência" e "baseado em evidência", a Agência de Proteção Ambiental (EPA) pode ter perdido mais de 700 funcionários, muitos dos quais cientistas, a embaixadora nas Nações Unidas Nikki Haley pode ter ameaçado os países que votaram contra o desejo dos Estados Unidos. Mas a imprensa livre resiste, a sociedade civil organiza-se, as mulheres concorrem a eleições em número recorde e Portugal foi um desses países que votaram contra a declaração de Jerusalém como capital de Israel.

Estamos numa altura em que tudo parece possível - até um ataque extraterrestre nos céus de Los Angeles. A história repete-se. A luta renova-se. Yes, We Can passa a Yes, We Will. Por cada Darth Vader que surgir em qualquer recanto da galáxia, haverá sempre o foco de Uma Nova Esperança.

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