Um triângulo de ambições

A inquietante crise do globalismo, sobretudo na medida em que impossibilita o regime de paz geral cuja efetivação foi confiada a instituições de jurisdição mundial, a começar pela ONU, vê-se agravada com os chamados "neonacionalismos", por vezes "micronacionalismos" quando implicam a fratura da unidade de um Estado. Mas embora este fenómeno exija atenção constante pelos efeitos negativos que deixa prever, ou que até anuncia, está em curso um novo desafio, talvez mais preocupante quanto à anarquia das relações internacionais que pode provocar. Trata-se de coincidência temporal da proclamação de Trump no sentido de "Make America Great Again", de Xi Jinping pretender "realizar a grande renovação da Nação chinesa", e de Poutine, ao declarar que a sua fronteira geográfica é inferior à sua fronteira de interesses, invocar a "Grande Rússia".

No fundo, quer os "micronacionalismos" quer o que chamamos "nacionalismo conservador", quando referem o que podemos continuar a chamar "grandes potências", parecem atingidos por um conflito entre o globalismo do presente e a memória do soberanismo da ordem internacional que as guerras destruíram, e o avanço científico e técnico avançou para a exigência de reorganizar a ordem pela governança global.

Em vista da grandeza das três grandes potências que se avantajam no panorama global, o micronacionalismo passa a abranger, sem violência semântica, a Frente Nacional de Marine Le Pen, o euroseparatismo vacilante do Reino Unido, a intervenção de Frank Petry com a alternativa para a Alemanha, ou de Matteo Salvini com a Liga do Norte italiana, as quais fazem esforço para se solidarizarem.

Aqui ao lado, a questão da Catalunha é um incómodo não apenas para a Espanha unida, como para a União Europeia, o que nos inclui.

Mas esta erosão da unidade política, que fora institucionalizada na União, não pode ignorar as proclamações referidas da América, da Rússia, e da China, sendo de destacar o discurso de Xi Jinping, de 2016, que ao mesmo tempo que louvou a mundialização da economia, não deixou de manifestar a contrariedade quanto a uma governança mundial. Naturalmente a questão das migrações em curso não deixa de afetar as atitudes defensivas das identidades de cada comunidade, grande ou pequena, envolvida.

Neste processo, destaca-se o facto de a China ter uma das identidades mais antigas, de milhares de anos, pelo que o que se destaca do lado da política que se prepara para as proeminências, é a de uma hierarquia que não será fácil de se articular em cooperação pacífica, nem de ser aceite pelos fieis ao ideal da ONU, em cujo percurso nem deixou de ser contestado o privilégio de veto, e suportada a diferença entre as decisões da Assembleia Geral serem orientações, e as do Conselho de Segurança serem decisões imperativas.

Nesta situação complexa, que com frequência obriga à intervenção verbal do Secretário Geral, no exercício do poder da voz e do dever de apelar à autenticidade, é talvez a União Europeia a mais eventualmente afetada na sua missão de salvaguardar e fazer progredir a solidariedade e unidade dos membros, já dificultadas pelo trabalho em prol da unidade depois da queda do Muro de Berlim, e agora pelo brexit, pela intervenção do Presidente americano que vai no sentido de enfraquecer a solidariedade atlântica com o manifesto descaso na reunião dos sete, a descontração na visita ao Reino Unido, abusando da aparência criada pelos improvisados discursos a favor dos desamparados, mas com medidas inesperadas como a do inacreditável muro contra os vizinhos, e nunca embaraçado com as interpretações variáveis dos discursos.

A sementeira crescente dos partidos genericamente chamados populistas ameaça que fraturas internas da União, também incluam nas causas o referido triângulo de ambições. A busca de alternativas tem de ser fortalecida e empenhada, a favor da integridade do património europeu no património comum da humanidade, definitivamente abandonando qualquer ambição de recuperar a imagem de "Luz do Mundo", mas ganhando a de fidelidade à evolução do globo em paz e unidade.

Ainda não desapareceu a geração que sofreu, a seguir à paz do fim da segunda guerra mundial, a profunda inquietação de a chamada guerra fria ser apenas um armistício, nem as crises que apagaram muitas das esperanças causadas pela queda do Muro de Berlim. Estas sobreviventes, e a geração dos seus descendentes, deviam ser uma realidade humana com voz suficientemente audível para exigir reponderação aos responsáveis pelo futuro que está a impedir o renascer da esperança.

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