Um risco geral

Chegamos ao fim de 2017, com uma União Europeia preocupada, com fundamento evidente, com uma reforma de estrutura que faça desaparecer a inquietação com a multiplicidade de populismos, e falta de confiança ou esperança dos eleitorados pelo seu próprio destino quando preferem a abstenção nas eleições, com a vida habitual das sociedades civis europeias divididas na resposta ao turbilhão das migrações movidas pelo pânico, com real fundamento, nos seus países, tendo frustrações em relação aos sonhos dos sonhadores e atores da unidade europeia e fortalecimento do exemplo e modelo da solidariedade atlântica, documentada esta pela juventude americana que veio morrer na Europa para a libertar.

Neste ano, a inquietação maior, e inesperada, surge com a desconcertante gestão governativa dos EUA. É demasiadamente próxima a recordação de um só homem, Hitler, moderadamente informado mas largamente vocacionado para a governação de um grande povo, democraticamente eleito e apoiado em poderosas forças empresariais, que provocou a maior das calamidades entre todas as calamidades da história da Europa e do mundo. E bastava ao coletivo de estadistas responsáveis por esta causa da paz lembrar o histórico comentário de Bismark no sentido de que uma simples leviandade poderia causar um desastre.

Assim aconteceu nas duas guerras mundiais, mas isso não foi até agora suficiente para evitar que leviandades, que só benevolentemente podem designar-se deste modo, se acumulem neste Ocidente outonal, e justamente consequência de uma escolha equivocada pelo eleitorado do país a que o Ocidente respeitara assumir a liderança do mundo em mudança, como foram os EUA enquanto vistos como A Casa no Alto da Colina. Quando o globo está ameaçado pelo risco ambiental, e mais de metade dos Estados membros da ONU não têm capacidade sequer para responder aos ataques da natureza, tufões, inundações, terramotos, incêndios, epidemias, o dirigente da maior potência, não apenas militar, decide abandonar o Acordo de Paris com o declarado fundamento, que a sua sabedoria lhe inspira, de que se trata de um erro, usando aqui esta palavra que não corresponde exatamente à utilizada.

Quando a UNESCO, responsável pela conservação e valorização do património da humanidade, tem acidentalmente uma política que lhe desagrada, e até pode admitir-se que o acaso lhe dê razão, a decisão foi retirar o financiamento. Quando lutamos, designadamente na Europa em crise financeira e económica, contra o terrorismo que nos EUA, com as Torres Gémeas, fez a grande demonstração de o fraco poder atacar severamente o forte, difunde vídeos antimuçulmanos que agravam a violência das respostas e ataques. Quando passa um olhar pela NATO, transforma imediatamente em tema a relação entre a pertença dos EUA e a pontualidade das contribuições financeiras dos parceiros europeus, pondo a contabilidade de empresário antes da avaliação dos riscos, e também da segurança do que diplomaticamente ninguém chama o império americano, mas chama, sem erro, parte da segurança da proeminência americana, apoiada na sua rede de bases ao redor da terra. Distraidamente, acorda uma fogueira na Palestina, onde já pode começar a contar os mortos.

Chega por isso a parecer fator de nova esperança, neste pouco feliz 2017, que o Presidente Putin tenha sido aproximado pelo presidente dos EUA, porque não sendo fácil avaliar o modo e tempo que levará a definir uma governação mundial, pode a paz consentir a consideração da clássica busca de equilíbrios, respeito pelos tratados e incriminação da guerra injusta, que parecem os instrumentos disponíveis para tentar um diálogo que ao menos amenize a tensão verbal e inovadora entre os governantes da Coreia do Norte e o presidente americano, indesculpavelmente esquecidos do mais aviso do que comentário de Bismark, quando disse que uma simples leviandade pode ser a causa de uma catástrofe.

Uma catástrofe que ameaça ser agravada pelo avanço da ciência sem consciência, uma conjugação que se iniciou quando os cientistas que primeiro experimentaram o poder atómico não foram respeitados ao recomendar que nenhum poder político deveria usar tal poder. Não falavam coreano, mas falavam inglês. Por tudo, Bismark não deixaria de incluir entre as leviandades que tinha anotado no seu pensamento de estadista os incidentes que se acumularam e ameaçam a paz neste fim de ano. Não estavam, porém, nessa data, à disposição dos empreendedores governantes em exercício os meios com que a ciência sem consciência os dotou para a prática das temidas leviandades, com consequências irreparáveis. A mobilização de todas as seguranças disponíveis pelas organizações internacionais organizadas, e a condenação das imprudências conscientes das potências existentes, está a ser chamada pelas circunstâncias ao dever de agir.

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