Um mundo em suspenso

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Depois da queda do Muro de Berlim, a primeira grande pergunta dos investigadores, sobretudo os que se fascinam com escrever a história do futuro, foi encontrar resposta para a identificação das potências de ontem e de amanhã, o que evidenciava a partilhada suspeita de que, sendo porventura impossível organizar outros, o modelo passado se reconstituiria. A convicção dos ocidentais, sobretudo os que tinham meio século de vida na sustentação da segurança entregue à NATO, inclinavam-se no sentido de que o poder e a liderança dos EUA sobreviriam ao mundo em mutação, não apenas pelo poderio militar mas pelo avanço nos recursos e modelos da vida civil, que seriam reproduzidos pelos sempre aperfeiçoados meios de comunicação. Admitiam, infelizmente, que meios aperfeiçoados seriam postos ao dispor dos complexos militares-industriais, crescendo sempre o mercado da estratégia do saber. E, todavia, já eram também visíveis os sinais de que a arena da luta pela hegemonia iria receber em crescendo o desafio do poder económico da geografia alterada, que as dinâmicas islamitas viriam a incluir o terrorismo animado por valores religiosos, que a criminalidade económica acompanharia a expansão do mundialismo daquela criatividade, e que conflitos religiosos, como na África libertada, se multiplicariam, levando analistas a caracterizar a situação como de "guerra em toda a parte".

Em vez daquilo que os idealistas chamaram "mundo único", foi o desânimo que atingiu crescentemente a ideologia e os esforços dos ocidentais esperançosos, que produziu, com a chamada "política dos turbilhões" a crescer, o êxito do tríptico de A. H. Hirschman, com o seu Exit, Voice, and Loyalty: Responses to Decline in Firms, Organizations, and States (1970), sendo difícil prever a evolução em resposta às três perspetivas examinadas, embora as diplomacias contestatárias da velha ordem renovassem os métodos, designadamente não aceitando a dos EUA e dos que tinham, quanto a isso, escolhido, entre as alternativas Hirschman, a loyalty conservadora, e Obama tenha por seu lado preferido, no tempo, sempre breve, do seu mandato, o diálogo construtivo à superioridade exibicionista do poder.

Como se está vendo, pela ação do sucessor, parece que voltamos, sem sabedoria ou prudência, a abrir mais o caminho das estratégias de ameaça à paz, das respostas provocatórias e, em consequência, a desordem internacional. Os ideais democráticos, e das várias formas de Estado social, encontraram dificuldades doutrinais, políticas e económicas, e não impediram o crescimento de um mundo de desigualdades, onde vigora escassamente o princípio de que todos os homens nascem com igual direito à felicidade, na escrita constitucional de Jefferson. O que enfrentamos é um mundo de ruturas, com um mundo árabe caótico, com o turbilhão das migrações forçadas, com os populismos pondo em dúvida se o projeto europeu tem futuro, com os EUA preocupados com a Rússia e a China, só como exemplo, a quererem retomar a histórica posição de grandes potências, a demonstrar que as emergências não são apenas económicas, e que, como a Coreia do Norte atesta, também são de poderio militar-atómico.

Ainda com os EUA dando o exemplo de descurar a ameaça climática que vem somar-se à capacidade que está ao alcance de desatinados estadistas de destruir o planeta Terra, com as instituições internacionais, como a ONU e a UNESCO, em perda de autoridade, e com os mais esperançosos em procura de quem afinal governa o mundo, mesmo sem estrutura legal. E neste ponto cresce a desorganizante Primavera Árabe, os nacionalismos destrutores da unidade do Estado, com o principal exemplo na Catalunha, a possível desagregação do Reino Unido, o que tudo impede ignorar, ou tentar obscurecer com as técnicas do Estado espetáculo, que a mais urgente das respostas é reformar a estrutura internacional tornando efetivo o espírito, agora como que aprisionado, que orientou a ONU, tornar claro que o internacionalismo é um facto que exige governança, que a ecologia é uma ameaça que tem primazia entra as muitas que toldam o horizonte, que os recursos que alimentam os complexos militares-industriais, de que se lamentou Eisenhower, têm de ser regulados para garantir o serviço da paz e segurança, e não os triunfos de gestão. A pergunta dominante no sentido de saber "quem governa o mundo", de facto, corresponde à evidência de que existe um "desgoverno do mundo", mal orientado e mal sabido, ou totalmente ignorado, e que o maior desafio deste ano de 2018 é organizar a "governança", com esperança de que a Europa tenha êxito na reformulação da estrutura que vai sendo anunciada, neste ano de múltiplas eleições que não permitem confiar em previsões estatísticas, mas antes no reaparecimento das vozes encantatórias, que tivemos, e até agora se esgotaram.

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