Os tratados e os factos

A questão da Coreia do Norte obriga os órgãos que foram definidos e organizados para obter um regime de paz que impedisse a repetição de desastres, previstamente mais graves, do que as duas guerras mundiais do século passado, a enfrentar, sem subterfúgios, a tendência da longa história, mas a crescer, de os tratados serem desfeiteados pelos factos. Parece tomar o lugar de paradigma um conceito antigo, invocado pelos violadores dos compromissos, de que se o resultado é o procurado, a violação dos preceitos está justificada.

Logo após a criação da ONU, de facto a vigência da Carta foi limitada pela Ordem dos Pactos Militares. NATO e Varsóvia, havendo razões para temer que a intervenção continuada da presidência dos EUA no conflito, já não apenas diferendo, com a Coreia do Norte, tenha um resultado desacreditador dos tratados, como a inatividade da Sociedade das Nações, perante o vigoroso discurso do Negus da Etiópia invadida pela Itália, teve para apressar a sua falência. Temos longa experiência do perigo das palavras, quando o seu uso vem acompanhado do excesso do esquecimento, ou ignorância originária, da arte e prudência da indispensável diplomacia atenta e responsável. No longo esforço que, com intervenção dos EUA, levou à chamada paz de 1918, que permitiu gratificar Woodrow Wilson com o Prémio Nobel da Paz, um general alemão desabafou que não se trata de paz, mas de armistício.

Quando a Cortina de Ferro partiu a Europa em duas, Spaak declarava na Assembleia Geral da ONU, dirigindo-se à URSS, que a nossa política se baseava no medo, o que provocou a custosa chamada Guerra Fria, e talvez pelo hábito, erros como o da intervenção no Iraque, a servir de precedente aos que se seguiram. Este erro parece não servir de exemplo à maneira como a presidência dos EUA conduz o conflito com a Coreia do Norte, recorrendo a um monólogo sem precedentes de modelo, e talvez convencendo assim o adversário de que o erro do Iraque não seria cometido se este tivesse realmente o poder atómico que foi gravemente denunciado ao Conselho de Segurança pelo embaixador que era um general americano prestigiado, mas levianamente mal informado.

Talvez isto esteja na lembrança do atual comando das Forças Armadas americanas quando um dos seus mais graduados chefes já declarou, segundo a imprensa, que os generais americanos não são estúpidos, e não obedecerão a ordens que considerem ilegais de qualquer presidente. Foi divulgada, e certamente por ser uma declaração enquadrada na ética da obediência militar consagrada pelo Tribunal de Nuremberga que julgou os responsáveis pelos crimes contra a humanidade, mas isso não impede que o adversário, pelas declarações abrasadoras do presidente em exercício, seja mais estimulado pelo exemplo do Iraque complementado pelas irrefletidas intervenções da autoridade posta em causa.

A reunião do Conselho de Segurança que ouviu as mensagens da representante dos EUA sobre a maneira como o responsável presidencial está a ler as circunstâncias é impossível que tenha levado tranquilidade aos membros do órgão mais responsável pela paz; e que, não precisando seguramente nenhum deles da intervenção para saber, pelos serviços de segurança dos seus países, a situação de ameaça iminente em que o globo se encontra, todavia não conseguiram enunciar qualquer via de prevenção e apaziguamento ao menos dos desmandos de linguagem entre os dois protagonistas da produção de ameaças recíprocas que evidenciam a menorização dos tratados remetidos para o esquecimento pelos factos que anarquizam a previsão do futuro que envolve todos, sem distinguir culpados e inocentes.

Os EUA são um país de uma importância prevista e anunciada pelo ilustre português Abade Correia da Serra, que contribuiu decisivamente com o sacrifício da sua juventude para a libertação da própria Europa em grande parte destruída pela loucura de um só governante de um dos países que mais tinham contribuído para o esplendor da ciência e da cultura, na época em que a Europa foi chamada a luz do mundo. O povo americano não pode deixar de exigir que um só homem, eventualmente mal elucidado sobre as funções em que o eleitorado o investiu, e as circunstâncias desafiaram, dando-lhe responsabilidades que excedem governar o seu país, seja apoiado, com esforço e convicção e bons conselheiros, para dirigir as políticas no sentido da organização de uma estratégia diplomática confiável que evite a catástrofe nuclear com que os factos ameaçam o globo. Porque a situação de facto não é a de um ameaçador confronto verbal entre dois poderes políticos nucleares, é uma ameaça global num mundo em que a governança do globalismo apenas deu passos inseguros.

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