A última reunião da Assembleia da ONU continua a merecer atenção e meditação sobre o desencontro, não recente, mas subitamente visível, entre os que doutrinam ser útil, para a eficiência do poder governativo, que o povo acolha uma regra jurídica imposta e os que sustentam que o verdadeiro Estado, não é o que tem ao dispor a violência efetiva, mas sim o que aceita limitações de ordem moral. Isto é, aquilo que Hans Küng chama os paradigmas comuns que, aceites globalmente, assegurariam a que é, até hoje, uma utopia, exatamente o que foi chamado por Karl Christian Friedrich Krause (1781-1832) a Aliança da Humanidade. O que pareceu ter um começo de execução com os projetos que se seguiram ao fim da guerra de 1939-1945, com a ONU, com a solidariedade das partes componentes do Ocidente, e sobretudo, neste nosso continente, com o que seria a União Europeia. Quer as dificuldades evidentes que a União enfrenta no sentido de se reformular, e tornar viável, o projeto de antigos doutrinadores, quer o agravamento da dificuldade de consolidar a perspetiva que animou a ONU, colocaram em urgência a questão de enfrentar, se necessário e possível, o desencontro entre o progresso material, científico e técnico e o progresso da disciplina ética do Estado, das relações entre diferentes culturas, e das diferentes memórias..Não pode negar-se, como salienta o inquieto muçulmano Malouf, que os últimos tempos colocaram à disposição das sociedades ferramentas que os séculos passados nem imaginaram, mas "enquanto na organização do conhecimento, no desenvolvimento das ciências, na adaptação à tecnologia civil ou bélica, na produção e divisão das riquezas, temos evolucionado a um ritmo acelerado, na questão da mentalidade e comportamentos humanos a evolução foi errática e, em conjunto, inadequada, tragicamente inadequada". Que se trata de um desencontro pareceu evidente no depoimento, num domínio que tende para parecer ser uma forma de guerra, que é o da economia, feito por Alan Greenspan, na qualidade de antigo diretor da Federal Board, no Congresso dos EUA, em outubro de 2008, explicando e justificando as decisões tomadas durante o seu exercício. Afirmou ter sempre agido convencido, e por isso certamente descuidando inspeções, de que a prudência das empresas que concediam créditos agia sempre sem comprometer os interesses dos próprios acionistas. Proferiu estas palavras: "Nesta base se calcularam os riscos durante séculos, mas este edifício intelectual desmoronou-se no verão passado." Não faltaram críticas depreciativas quanto à declaração, mas o interesse que as inspirou não tem crédito em face da desordem que se tornou global..Não é de estranhar, mas exige atenção responsável, a tendência também pública no sentido de obter uma ordem viabilizadora da paz, e até de para isso rever a hegemonia que pertenceu aos EUA, exigência tornada clara na intervenção presidencial na inesquecível última reunião da Assembleia Geral da ONU. Trata-se de uma visão do regresso ao passado, que tem dimensões erráticas, à capacidade suposta de cada Estado insatisfeito, e são vários, na atual situação da União Europeia. Uma ferida na esperança que animou a geração que enfrentou a destruição da guerra, e que até dá vigor a meditações como as de Harari (Homo Deus, 2015) quando anuncia a "religião dos Dados", uma "História Breve do Amanhã", um amanhã em que a inteligência artificial e a robótica "alterarão as relações humanas e com as outras espécies". É urgente não perder o controlo, exercendo a capacidade de compreender a necessidade de formular um projeto de governança, que responda às exigências dos conhecimentos e mudanças causadas pelo avanço das ciências e das técnicas, mas sem alienar o acompanhamento pela filosofia, pela religião, pela história, sem desencontrar a ciência com a consciência, tendo presente que é responsabilidade humana, mas de forma institucional, como a ONU anunciou, e esperamos que não desista..As más experiências do passado da ONU são património de saber para organizar as reformas, sem medo do futuro, e não para esperar triunfos com retiradas políticas para um projeto de outro século. Quando se multiplicam os chamados populismos e as eleições em vários países europeus mostram um acentuar do abstencionismo, outros de crescente meditação sobre o brexit, e finalmente o fortalecimento de partidos reacionários, o traço comum é o desencanto, e até repúdio, da evolução débil da relação das governanças nacional e global, é como que um apelo ao passado por falta de visibilidade de um futuro restaurador da confiança. A relação sólida entre ciência e consciência é fundamental.