Navegantes da fé

Este livro de D. Ximenes Belo intitulado Missionários Transmontanos em Timor-Leste aparece numa época que me tem parecido de outono ocidental, com decadência das estruturas legais organizadas para tornar efetiva a governança do globalismo em face da ocidentalização do globo que os portugueses iniciaram, abrindo a época que os historiadores chamaram de Descobertas e em que os chamados navegantes da fé legaram o imperativo do "mundo único", isto é, sem guerras, e da "terra casa comum dos homens", hoje com expressão na ONU.

De facto, a ocidentalização do globo que escritores não portugueses reconhecem ter início histórico com o inexplicável milagre de um dos mais pequenos países da Europa ter construído o maior império do tempo das Descobertas, como os recentes comentários de Roger Crowley (Conquistadores, Lisboa, 2015), e Malyn Newitt (Portugal na História da Europa e do Mundo, Lisboa, 2012) acentuam, é certo que a violência nunca deixou de estar na origem da definição e imposição do poder político sempre que a evolução implica com a mudança das estruturas.

Mas compreender que tal violência deve ser confrontada com os valores implantados é uma exigência do sobrevivente "património imaterial da humanidade", de que a UNESCO é hoje a principal responsável, Afonso de Albuquerque, o mesmo capitão que escrevia ao rei - preparando-se para expurgar Goa "completamente da presença muçulmana" - aderiu, diz Crowley, "a um ideal de justiça robusto", que deduz deste parágrafo: "Desde que as muralhas (Ormuz) sejam sustentadas pela justiça e sem opressão, são mais do que suficientes. Mas se a boa-fé e o humanismo deixarem de ser praticados nestas terras, o orgulho derrubará até as muralhas mais fortes que tivermos. Portugal é muito pobre e quando os pobres cobiçam tornam-se opressores. Os povos da Índia são poderosos - temo que chegará a altura em que, em vez de sermos conhecidos como guerreiros, como agora, sejamos conhecidos como tiranos cobiçosos."

É notável por isso que a história da relação entre Portugal e Timor seja uma "história de amizade e de missionário", como sublinhou Armando Palavras no famoso texto em que caracteriza as fases do encontro depois da conquista de Malaca. Ficou a missionação, a história e a solidariedade da parte do "património imaterial da humanidade" que indestrutivelmente nos une e cujo alicerce está profundamente implantado e seguro por intervenção dos missionários, em que se distinguem os transmontanos, e neste os que nasceram e partiram de Freixo de Espada à Cinta, cuja memória é codificada por esta obra de D. Ximenes Belo, o cuidadoso cronista destes "marinheiros da fé".

Não podemos, em todo o caso, deixar de acrescentar algumas notas relacionadas com factos que se verificaram no tempo da minha geração, sendo que aos mais graves está para sempre ligada a intervenção de D. Ximenes Belo. A "neutralidade colaborante", da guerra de 1939-1945, uma definição sem passado e julgo que sem futuro, segundo a qual os Açores ficavam comprometidos com a aliança ocidental, garantia que todos os restantes territórios portugueses ficavam neutrais. O "restante" incluía Timor na proclamada neutralidade protetora, mas disso não tomaram nota os responsáveis.

A invasão japonesa foi brutal, deixou um testemunho de dignidade, coragem, e exemplo, no sacrifício de D. Aleixo, na avaliada morte de umas duzentas mil pessoas, incluindo missionários, mas não atingiu os valores cristãos implantados nem a amizade com Portugal. Quando no fim da guerra atracou o primeiro contingente militar português, foi recebido por uma esfarrapada guarda de honra, mas com a bandeira portuguesa, que fora escondida e escapara à destruição, erguida e inspiradora. Mas depois da descolonização, na sequência da doutrina da Carta da ONU, em plena invasão das tropas indonésias, começou outro martírio, em que se distinguiu o futuro presidente Xanana Gusmão e D. Ximenes Belo.

Na sequência do 25 de Abril, Timor era um Estado independente, e por isso era a ONU que tinha de impor a sua autoridade, porque a Indonésia invadira um Estado independente, e não apenas Portugal, cuja intervenção sempre esteve legitimada para, como qualquer membro da ONU, levantar a voz contra o abuso cometido.

O Presidente Mário Soares assumiu essa linha, conseguindo a retirada da Indonésia apoiada pela intervenção eficaz da diplomacia portuguesa. Distingue-se, nesse doloroso período, a intervenção de D. Ximenes Belo, que, vindo a Portugal, a caminho de Roma, depois de instaurada a independência, foi recebido pela população de Lisboa com vibrante manifestação de apreço e gratidão, tendo visto a sua ação mundialmente consagrada com o Prémio Nobel da Paz em 1996.

Recordo finalmente a homenagem que lhe foi prestada em sessão pública, sob a presidência do Presidente da República Jorge Sampaio, com a inauguração de um monumento onde numa artística e monumental placa se transcreveram palavras de portugueses sobre os "navegantes do mar" e "os navegantes da fé". A sua humildade é companheira inseparável do bom pastor.

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