Derrotar Le Pen

Marine Le Pen não cativou mais de dez milhões de franceses, nem alguns milhões mais pela Europa fora, por ter sido estrela de conferências ou por ser visita das elites intelectuais, sociais ou económicas. Pelo contrário, Le Pen seduz milhões de pessoas por ter sido excluída desse mundo: é nesse pressuposto, com essa medalha, que consegue chegar a todos aqueles que, na sequência de uma crise internacional e na vertigem de uma nova economia digital, se sentem excluídos, a ficar para trás, sem oportunidades.

De cada vez que alguém lhe fecha a porta, Le Pen vira-se para o seu eleitorado e diz: "Eu sei o que vocês sentem, eu sei o que é a exclusão, eu sou a vossa voz." É o que vai suceder assim que se souber que lhe foi retirado o convite para falar à elite da economia digital: "Eles querem tirar-nos os empregos, os direitos, substituir-nos por máquinas, fazer de conta que não existimos - não me quiseram lá para não os acusar." Se fechar a porta a Le Pen bastasse, servisse, ela nunca teria alcançado mais de dez milhões de votos. Mas alcançou.

E nenhum desses votos veio de gente que ignora tudo o que se diz de Le Pen, porque é impossível ignorar o que o panorama político, ao excluí-la, diz dela; é impossível não conhecer, não ouvir, as acusações de xenofobia, nazismo, fascismo, totalitarismo, radicalismo; é impossível passar uma campanha sem saber que ao votar na Front Nationale se está a votar no mal. E, apesar disso, milhões de pessoas votaram. Se elencar epítetos sobre Le Pen bastasse, servisse, ela nunca teria alcançado mais de dez milhões de votos. Mas alcançou.

Organizar movimentações ou apelos para a retirada do convite para participar na Web Summit vale por isso de pouco. Não me compreendam mal: eu percebo a indignação que Le Pen provoca, porque também não aceito a sua xenofobia, a sua visão fechada do mundo, as suas simpatias por autoritários e ditadores. Mas iniciativas dessas, sempre cheias de proclamações, sempre cheias de consciências morais, reúnem imensos aplausos entre os que pensam como nós, oferecem imensas medalhas de antifascismo e antinazismo, mas não trazem de volta uma única pessoa que fomos perdendo para Le Pen. Podem acalmar a raiva de muitos, mas essas iniciativas como que confirmam o sentimento de exclusão que levou muita gente para os braços de Le Pen - e acho sinceramente que deveríamos concentrar-nos no que funciona, no que a pode derrotar, e não no que fica bem entre os nossos apoiantes ou nos oferece mais medalhas.

Se queremos derrotar Le Pen, temos de aproveitar cada oportunidade para, na cara dos seus apoiantes, à sua frente, a desmascarar. São eles que precisam de perceber, como dizia Macron, que ela nada tem para dar que não pós de perlimpimpim. É perante eles que temos de desmontar solução a solução, mentira a mentira, preconceito a preconceito, ilusão a ilusão, sabujice a sabujice, deixando-a sem resposta, obrigando-a a perder a face, a ficar sem resposta, derrotada. Foi o que fez Macron, aliás, sempre que teve oportunidade, não se recusando a debater com ela.

Já vou tarde, eu sei, para me alistar para uma sessão que não vai acontecer, mas eu estaria de bom grado na primeira fila de uma sessão em que pudesse confrontar Le Pen, em que pudesse demonstrar perante toda a audiência, e revertendo os seus idiotas silogismos, por que razão ela é uma impostora. Para isso, sim, contam sempre comigo.

Advogado e vice-presidente do CDS

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