Padrões de exigência

Um casal de italianos entra num café de uma conhecida cadeia de pastelarias lisboetas, numa zona enxameada de turistas. Não é o início de uma anedota, mas bem poderia ser. Para decidir o pedido, os dois solicitaram ajuda ao empregado - que sem falar uma palavra de outra língua que não o português, e visivelmente enfadado, lhes fez sinal que esperassem até encontrar alguém que pudesse entender o que perguntavam. Ao fim de três ou quatro tentativas, olhares de esguelha para o casal e recusas por ignorância, acabou por conseguir que a estagiária que ali dava os primeiros passos se chegasse à frente, lhes explicasse os menus em inglês e registasse a escolha com pedidos especiais e tudo. Os dois italianos pagaram, levaram o que pediram e apesar da simpatia da moça é quase certo que durante a sua estada em Lisboa não tornaram a arriscar entrar numa casa daquele grupo.

Portugal sempre foi um destino de turismo, mas nos últimos quatro anos tem batido sucessivos recordes quer no número de estrangeiros que nos procuram quer no valor que aqui deixam, com as receitas do setor a passar os 12 mil milhões de euros. Surpreendentemente, esse movimento não foi acompanhado por uma subida sustentada dos salários médios no setor. E nem a certeza de que falta mão-de-obra para fazer face a novos crescimentos projetados - prevê-se que sejam precisos 40 mil trabalhadores já neste ano - é suficiente para os fazer descolar dos poucos mais de 600 euros indicados pelo Instituto Nacional de Estatística. É difícil acreditar no que os números mostram - e a razão é que esse bolo esconde realidades bem distintas, que vão até além das diferenças entre hotelaria e restauração. Acontece que, acima dessa distinção, temos de um lado trabalhadores minimamente qualificados, cuja remuneração tem evoluído - o maior grupo hoteleiro português revelava há tempos ter aumentado os seus funcionários em 11%, entre 2013 e 2016, além de lhes garantir uma fatia dos lucros -, e do outro aqueles que não têm grandes preocupações com a qualidade. Com tanta oferta, estes estão condenados ao fracasso.

Os salários no turismo vão subir, e justamente, conforme a procura de mão-de-obra continue a superar a oferta. Mas é bom que os parâmetros de exigência continuem a subir na devida proporção.

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