Ninguém quer o fim da Coreia do Norte

Sejamos claros: ninguém deseja a extinção imediata da Coreia do Norte. Por muito que o seu jovem líder seja uma ameaça, por muito que o programa nuclear do país assuste e por muito que a retórica fanfarrona do regime irrite, a Coreia do Norte não está tão cedo destinada a desaparecer do mapa, pois tal não é do interesse de nenhuma das potências, nem sequer da própria Coreia do Sul.

Imaginemos que o regime dos Kim desaparece e que após um período de alguma incerteza a reunificação coreana acontece sob a égide do Sul. Chineses e russos ficariam de repente com tropas americanas na fronteira, o Japão veria um rival histórico duplicar em território, aumentar em um terço a população e somar um potencial económico tremendo a um PIB que já é o 11.º mundial. Quanto aos Estados Unidos, teriam de lidar com as preocupações chinesas e russas e com a competição entre coreanos e japoneses, os seus aliados regionais. Já a Coreia do Sul, apesar do desejo oficial de reunificação, não tem os meios económicos para enquadrar de um momento para outro 25 milhões de pessoas, da mesma língua é certo, mas vindas de um sistema nada adaptado ao competitivo mundo moderno que é aquele onde se movem a Samsung ou a Hyundai.

Assim, o objetivo lógico das pressões internacionais terá de ser a racionalidade do regime norte-coreano. Fazer Kim Jong-un sentir que apesar da Guerra de 1950-1953 ainda estar à espera de um tratado de paz nada obriga a esta tensão permanente, que prejudica sobretudo os norte-coreanos, mais pobres que os outros coreanos. Fazê-lo, porém, desistir da arma nuclear não será tarefa fácil, até porque conhece o destino de Saddam Hussein e de Muammar Kadhafi, e estará convencido que foi o terem-se desarmado que ditou o final trágico de ambos.

Mas entre as ameaças de ataque do americano Donald Trump e o eventual estender de mão do futuro líder sul-coreano, sobretudo caso o oposicionista Moon Jae-in vença a 9 de maio as presidenciais antecipadas, talvez haja espaço para o jovem Kim sair do isolamento e reatar conversações entre Pyongyang e Seul, que lhe tragam vantagens económicas e políticas a nível interno e não só. Uma clássica situação de cassetete e cenoura sempre melhor do que um novo conflito intercoreano, nuclear ou não.

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