Líbia: Sarkozy desfez, Macron tenta refazer

A França é a França e um presidente francês, pelo menos desde Charles de Gaulle, será sempre um presidente francês. Este aparente pleonasmo significa, para bom entendedor, que o país se mantém fiel a uma tradição de influência internacional e que os seus líderes, à imagem do general que fundou a V República, se veem como protagonistas além-fronteiras. Ora, se há região do mundo onde essas pretensões francesas têm ainda hoje base real é África, pelo que não surpreende que Emmanuel Macron tenha ontem acolhido as duas grandes figuras atuais da Líbia para as convencer a um entendimento que tire o país do caos onde está mergulhado desde o derrube de Muammar Kadhafi, morto pelos rebeldes em outubro de 2011.

A ironia é que Macron está a tentar fazer aquilo que um antecessor seu, Nicolas Sarkozy, desfez: a unidade da Líbia, a sua viabilidade como país, o seu regresso a uma certa normalidade que trave a influência das milícias islamitas e do ramo local do Estado Islâmico. Sarkozy, que até chegou a receber em Paris Kadhafi, viu a Primavera Árabe iniciada da Tunísia no início de 2011 como uma oportunidade para se afirmar como campeão da democracia. Aconselhado pelo filósofo Bernard Henri-Levy, o presidente francês conseguiu que as Nações Unidas aprovassem uma intervenção militar em apoio dos rebeldes e de seguida que a NATO bombardeasse Kadhafi, o coronel no poder havia quatro décadas, a ponto de este já sem tropas ter de fugir em desespero, sendo encontrado escondido num túnel de irrigação e pouco depois morto.

Sarkozy até fez uma viagem triunfal a Tripoli e a Benghazi, quando Kadhafi já tinha perdido as grandes cidades mas ainda resistia. O triunfo na Líbia, porém, de nada lhe valeu nas presidenciais de 2012, quando François Hollande o bateu. Claro, imbuído do mesmo espírito intervencionista, Hollande ainda procurou ser o pacificador da Líbia pós-Kadhafi, mas sem resultados. Saiu pela porta pequena da presidência, mas não por causa do insucesso na Líbia.

Ao juntar Fayez al-Sarraj, chefe do governo reconhecido pelas Nações Unidas, e o marechal Khalifa Haftar, Macron arrisca pouco: pior a Líbia não pode ficar, mesmo que a produção petrolífera por fim esteja a recuperar e se aproxime do milhão de barris diários. Mas, se a paz se impuser a partir de agora, o presidente francês poderá tirar alguns louros.

A questão é saber se Al-Sarraj, com fracos apoios e dependente das milícias que derrubaram Kadhafi mas agora se comportam como pequenas máfias, cederá de forma inteligente ao superior poder militar de Haftar, que foi camarada de Kadhafi antes de cair em desgraça, viveu nos Estados Unidos até regressar para ajudar no derrube do coronel, e que de forma surpreendente em 2014 emergiu poderoso no Leste da Líbia. Haftar, que põe como prioridade derrotar os jihadistas e devolver a paz aos sete milhões de líbios, conta com o apoio interessado do Egito, o que pode ser decisivo. E, há uma semana, o presidente Abdel Fatah al-Sisi telefonou a Macron para falar da Líbia.

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