O Papa sabe o que não diz

Francisco encontra-se hoje em Daca com um grupo de rohingya, a minoria étnica que tem sido perseguida na Birmânia e que já vive em boa parte em campos de refugiados no Bangladesh. Um sinal mais de que o Papa está preocupado com o sofrimento deste milhão de pessoas, na sua esmagadora maioria muçulmanos, e que o facto de não ter usado a palavra rohingya quando, ainda na Birmânia, falou da necessidade de coexistência pacífica, nem ontem, já no Bangladesh, quando agradeceu a solidariedade com os refugiados do país vizinho, se deve a cautelas diplomáticas fáceis de entender: num dos dois países desta visita à Ásia, a religião maioritária é o budismo, no outro o islão, e o chefe da Igreja Católica sabe que as palavras podem fazer ricochete e afetar as minorias cristãs.

A partir de Roma, e quando pode exprimir-se sem constrangimentos, Francisco chegou a falar “dos nossos irmãos rohingya”, mas, ao viajar, o Papa tem de se lembrar também da sua condição de chefe de Estado (do Vaticano), condição excecional para um líder religioso. E na Birmânia, onde 6% da população é cristã mas só algumas centenas de milhares são católicos, Francisco foi aconselhado a evitar choques com os generais que ainda regem o país nos bastidores. Um dos que devem ter sugerido cuidado terá sido Charles Maung Bo, feito cardeal já por este Papa em 2015, por ter plena consciência de como o nacionalismo budista birmanês pode ser mobilizado contra as minorias. Já no Bangladesh, onde os católicos são ainda menos e cada vez mais alvo dos islamitas, a preocupação de Francisco terá sido evitar ser incongruente e também não parecer tomar partido contra a Birmânia, que recusa a nacionalidade aos rohingya, dizendo serem bengalis chegados nos tempos da colonização britânica.

Apesar dos jesuítas portugueses do século XVI terem andado por aquelas terras, na Birmânia e no Bangladesh o Papa não tem a mesma influência que nas Filipinas ou na Coreia do Sul, países com expressivas comunidades católicas. Por isso, muito do trabalho em favor do rohingya tem de ser feito sem publicidade, ajudando, por exemplo, nos campos de refugiados de Cox’s Bazar, no Bangladesh, onde a maioria nem sequer sabe o que é um Papa. Dêmos crédito ao Vaticano. É difícil imaginar uma diplomacia com mais tradição do que a sua.

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