O elogio espanhol

Gosto do título: Y una vez más, gana Portugal. Javier Martín del Barrio, correspondente do El País em Lisboa, inscreve assim meio a brincar a eleição de Mário Centeno para presidente do Eurogrupo numa série de recentes vitórias portuguesas, que vão do campeonato europeu de futebol ao festival da Eurovisão, passando por António Guterres à frente das Nações Unidas. Mais a sério, o jornalista espanhol prossegue com uma análise sobre a qualidade da diplomacia portuguesa, lembrando também a escolha de Durão Barroso há mais de uma década para presidir a Comissão Europeia.

Sobre os trunfos de Portugal, o El País fala de não sermos incómodos para ninguém, funcionarmos como excelente segunda escolha quando os poderosos não se entendem, também da facilidade com que falamos línguas. Tudo verdade, diga-se, mas há muito mais do que isso a explicar aquilo que já ouvi da boca de muitos diplomatas estrangeiros: Portugal pesa nas relações internacionais muito mais do que o seu território e os dez milhões de habitantes.

Sim. A história conta. E dá votos, pelo menos quando nos candidatamos ao Conselho de Segurança da ONU e, como aconteceu não há muitos anos, batemos a Austrália ou o Canadá. Para quem só pensa no colonialismo à maneira do século XX, uma leitura sobre o que foi o nosso império no século XVI talvez ajudasse a perceber certas simpatias em recantos onde hoje só sobram algumas palavras portuguesas na língua local ou pequenas populações, de cores diversas, que se reivindicam de origem portuguesa.

Mas não é só dos louros antigos que vive a nossa diplomacia. Mesmo contra os ventos da história, não faltaram embaixadores a mostrar valor nos tempos da ditadura, servindo o país, não o regime. Ainda há pouco tempo morreu João Hall Themido, embaixador nos Estados Unidos desde 1971 e que se manteve no cargo depois do 25 de Abril. Em Washington, lidou com Richard Nixon, Gerald Ford, Jimmy Carter e creio que um pouco ainda com Ronald Reagan. Ao mesmo tempo, respondia em Lisboa a primeiros-ministros tão díspares como Marcelo Caetano, Vasco Gonçalves, Mário Soares ou Sá Carneiro. E Hall Themido é um exemplo, não uma exceção.

Profissionalismo da diplomacia, pois. Muito trabalho de bastidores e, claro, bons candidatos, como agora o ministro das Finanças. Além dos trunfos conhecidos e de outros menos óbvios. É uma bela fórmula para o sucesso como país, como mesmo os espanhóis reconhecem.

Seria bom que o título do El País se repetisse lá para o verão do próximo ano...

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