Muitíssimo vale uma bandeira

A visão de atletas sul e norte-coreanos a desfilar juntos sob a mesma bandeira (península em azul claro sobre fundo branco) emocionou a multidão na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pyeongchang. Mas o facto em si não significa que, como num passe de mágica, a reunificação volte a estar na ordem do dia. Se esta trégua olímpica se prolongar, haverá já bons motivos para festejar. Quanto mais longe a guerra estiver no horizonte, melhor, seja para os 50 milhões que vivem a sul da DMZ seja para os 25 milhões que habitam a norte de uma fronteira que já foi coincidente com o Paralelo 38.

Quando em 1990 as Alemanhas se uniram, muito se especulou sobre se com o fim da Guerra Fria também não seria possível a reunificação da Coreia. Afinal, fora só a decisão de quem acima e abaixo do Paralelo 38 receberia a rendição japonesa no final da Segunda Guerra Mundial que levou à criação de um Norte sob proteção de Moscovo e um Sul na órbita de Washington. Mas se em 1990 todos os cálculos, económicos e políticos, evidenciavam ser mais difícil a reunificação coreana do que a alemã, hoje esses mesmos cálculos revelam diferenças intransponíveis: não só a Coreia do Sul se transformou numa democracia enquanto a do Norte é agora uma república dinástica como a diferença de desenvolvimento entre ambas é colossal, umas 20 vezes se medida em PIB per capita. E, se o Norte está decidido a sobreviver como regime comunista (e por isso o programa nuclear para dissuadir um ataque americano), também o Sul tem pouco interesse numa reunificação imediata.

Igualmente os vizinhos, seja a China ou o Japão, estão pouco motivados para a emergência de uma grande Coreia que a prazo tornar-se-ia uma potência. Claro que tanto Tóquio como Pequim se preocupam com o nuclear norte-coreano e a hipótese de uma guerra a envolver a América, mas para evitar esse cenário a receita é reintegrar Pyongyang na comunidade internacional, negociando com todos.

Assim, que depois deste Jogos de Inverno se mantenha a paz, regresse o diálogo entre os coreanos (e à volta deles) e um dia, construídas as condições, a reunificação aconteça. Sob esta bandeira do desfile de ontem ou outra.

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