Há tempo para resolver o crime

A 29 de junho de 2017 alguém entrou nas instalações militares de Tancos e levou armas e munições, incluindo uma caixa com 264 velas de explosivo plástico, cada uma delas com capacidade para fazer mais estragos do que o TNT. Aponto o assalto ao dia 29 de junho porque foi a data em que se assumiu - a verdade é que não há grandes certezas sobre quando o material desapareceu, ou sequer se terá sido todo levado de uma vez ou em suaves alívios prolongados no tempo. Certo é que houve generais exonerados e a maioria do material até foi recuperado - tudo muito bem arrumadinho numa mata perto da Chamusca, aviso feito por chamada anónima e caixa de explosivos extra, talvez para compensar o incómodo causado. Ainda assim, pediram-se cabeças e ordenou-se que se investigasse e entendesse o que acontecera para impedir repetições igualmente capazes de nos envergonhar a todos enquanto país.

Nove meses depois do roubo o que se sabe? Bem, sabe-se que os paióis de Tancos nunca foram seguros - nem os artigos estavam guardados nas condições que se esperaria que merecesse material tão sensível nem havia, tão-pouco nas rondas previstas, quem desse a importância de um olhar mais atento às armas, munições e explosivos ali armazenados. E também se sabe, portanto, que foi mera questão de sorte ter passado tanto tempo até alguém se lembrar de ali ir aliviar alguma carga, mesmo que depois se arrependesse.

Quem roubou, exatamente quando, em que circunstâncias e com que objetivo, tudo isso nos passa ao lado. Os sucessivos relatórios elaborados por diferentes autoridades têm servido para diagnosticar as falhas que possibilitaram o crime - e, espera-se, resolvê-las -, mas sobre o dito pouco ou nada acrescentam. E nem sequer há prazo previsto para a investigação criminal chegar ao fim. Tudo segue devagar e sem sobressaltos. Afinal, o saque até foi devolvido... e com o cuidado de fazer aviso de depósito, para evitar a possível delonga de um achamento casual, ainda que o lote tivesse sido devolvido a escassos quilómetros da dita base militar. É de valor.

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Com a idade, tendemos a olhar para o passado em jeito de balanço; mas, curiosamente, arrependemo-nos sobretudo do que não fizemos nem vamos já a tempo de fazer. Cá em casa, tentamos, mesmo assim, combater o vazio mostrando um ao outro o que foi a nossa vida antes de estarmos juntos e revisitando os lugares que nos marcaram. Já fomos, por exemplo, a Macieira de Cambra em busca de uma rapariga com quem o Manel dançara um Verão inteiro (e encontrámo-la, mas era tudo menos uma rapariga); e, mais recentemente, por causa de um casamento no Gerês, fizemos um desvio para eu ir ver o hotel das termas onde ele passava férias com os avós quando era adolescente. Ainda hoje o Manel me fala com saudade daqueles julhos pachorrentos, entre passeios ao rio Homem e jogos de cartas numa varanda larga onde as senhoras inventavam napperons e mexericos, enquanto os maridos, de barrigas fartas de tripas e francesinhas no ano inteiro, tratavam dos intestinos com as águas milagrosas de Caldelas. Nas redondezas, havia, ao que parece, uma imensidão de campos; e, por causa das vacas que ali pastavam, os hóspedes não conseguiam dar descanso aos mata-moscas, ameaçados pelas ferradelas das danadas que, não bastando zumbirem irritantemente, ainda tinham o hábito de pousar onde se sabe.