Esta mania de mexer no que está a correr bem

Há menos de uma década, havia em Lisboa quase cinco mil prédios devolutos. A maioria destes em zonas do centro histórico, progressivamente abandonado e degradado conforme a cidade crescera para fora dos seus antigos limites, formando novos dormitórios longe dos impenetráveis bairros de outrora. Não se encontrava boa casa para comprar ou arrendar, porque muitas delas estavam entregues a inquilinos de décadas (inamovíveis, portanto) ou simplesmente em ruínas. Um passeio pelos bairros da Sé, do Castelo, de Marvila, era uma tristeza. Uma ida à Baixa ou fugindo ali para as laterais da Avenida da Liberdade coisa deprimente - casas entaipadas, fachadas escamadas e sujas, vidros partidos, escadas a cair de podres, lojas esconsas e às moscas, ruas em que só restavam uns poucos habitantes conformados com o abandono ou em que não se via vivalma. A câmara investiu, inventou incentivos à reabilitação, ofereceu benefícios fiscais e disponibilizou arquitetos e engenheiros para ajudar quem tivesse projetos de renovação. A generosidade era notável, mas os efeitos mal se viam. Foi apenas com o boom do turismo que começou a notar-se algum dinamismo. A entrada de Lisboa para os roteiros de visita obrigatória trouxe estrangeiros com vontade de aqui investir, mas também despertou essa vontade em muitos proprietários lisboetas, há décadas espartilhados por rendas miseráveis e leis que apenas protegiam os inquilinos. E para estes a figura do alojamento local - modelo que durante anos e anos muitos de nós aproveitámos em viagens a outras capitais europeias - fez toda a diferença. Foi esse regime que permitiu que muitos prédios, ruas, bairros fossem reabilitados, rejuvenescessem, voltassem a ter gente. Entende-se agora que é preciso travar o alojamento local para preservar a cidade. Esquece-se, porém, que até há muito pouco tempo não havia o que preservar - nem vontade de o fazer. O turismo e o valor do imobiliário em Lisboa têm batido recordes, sim, mas sobretudo porque estavam em níveis incrivelmente baixos e porque gozamos, neste momento, de uma atenção extraordinária. É bom que os senhores deputados se recordem disso ao desenhar esses obstáculos. E é bom que os senhores autarcas pesem bem as consequências de deixarem que se interfira na fórmula que ajudou a trazer as suas cidades para o século XXI.

Brand Story

Tui

Do mesmo autor

Mais em Opinião

Mais popular

  • no dn.pt
  • Opinião
Pub
Pub