De volta às ruas

Entre greves, manifestações e outros protestos, março ainda não chegou ao fim e já é talvez o mês de mais forte contestação desde que o PS começou a conduzir o governo, apoiado pelos partidos à sua esquerda. E o líder da CGTP avisa que é de esperar que as coisas ainda se tornem mais intensas em abril - o primeiro sinal é a greve sem serviços mínimos que promete lançar o caos em Lisboa já na próxima segunda-feira, quando os trabalhadores dos comboios da CP, da Fertagus e até de mercadorias deixarem as carruagens paradas, em nome de um aumento salarial intercalar. Mas não estão sozinhos. Médicos e enfermeiros afirmam que as promessas que lhes foram feitas não foram cumpridas, professores continuam à espera de progressões que só chegaram a alguns e muitos outros funcionários do Estado, mas também de empresas privadas, reclamam por terem visto frustradas as suas expectativas. E a todos eles encaixa como natural voltar à luta que parecia ter deixado as ruas desde que a geringonça tomou as rédeas do país.

É caso para perguntar o que mudou nestes últimos meses que tanta insatisfação semeou numa sociedade que conseguiu recuperar de níveis de desemprego recorde para uma taxa que se prevê quase residual já daqui a um par de anos, com a economia a crescer a bom ritmo e os anos de cortes do ajustamento postos para trás das costas - ainda que uma fatia da banca continue a ser uma dor de cabeça. A resposta de Arménio Carlos, que lidera a CGTP, é simples: o governo continua a pôr os números do défice à frente da vida das pessoas. E não há reposição de salários, aumento de pensões, recuperação de empregos ou descongelamento de carreiras que cheguem para pôr um sorriso na cara de quem esperava por nesta altura já ter subido alguns degraus no nível de vida, depois dos anos de contenção. Claro que o consumo em Portugal subiu 7% no último ano, bem mais do que os 0,2% de média da Europa Ocidental, a venda de carros por cá aumentou o dobro da média europeia e o crédito concedido recuperou a olhos vistos, mas nada disso prova que as pessoas estejam a viver melhor...

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