A arte do ridículo

Há não muito tempo assistíamos ao derrube de estátuas alusivas à Confederação norte-americana e por cá chegou a discutir-se a sério - o que é incrível - a possibilidade de mandar retirar a estátua do padre António Vieira, a quem já se chamava criminoso, racista, vil promotor da escravatura. É uma pena que só tentemos copiar os exemplos mais estúpidos do mundo - mas admirável como ninguém se lembrou de que a ponte sobre o Tejo, mandada construir e inaugurada por Salazar, de quem chegou a ter o nome durante muitos anos, também devia ir abaixo...

Primeiro quis-se apagar a história, agora pretende-se fazer um apagão nas artes. A noção do ridículo perdeu-se algures na fogueira das novas bruxas, vítimas de um politicamente correto que é um engodo, uma ditadura armada da censura que noutros tempos os acusadores de hoje combatiam. Uns poucos acham que o que pensam é o melhor para todos e querem impor essa linha de pensamento. Perigosas, estas derivas. Estamos a falar de pessoas que acreditam que o mundo ficaria melhor se um quadro de Balthus fosse retirado do Met. O argumento, simplificado, Thérèse parece uma criança e a sua pose, de cuecas à mostra e ar lânguido enquanto sonha, puxa à exploração sexual e à pedofilia. Não entendem sequer que a perversão talvez esteja na sua própria cabeça. Nem quero pensar o que acontecerá a esta gente quando descobrir os meninos de David Hockney e outros que tais...

Parece que ainda não entendemos que nada de bom pode sair da imposição, seja para apagar personagens históricas, para moralizar a arte ou servindo qualquer outro fim. É um péssimo princípio, independentemente de quão convencidos estejam alguns dos seus próprios argumentos. Nada disto é muito diferente do que sucedeu há dois anos, quando Itália aceitou cobrir as estátuas de nus durante a visita do presidente do Irão. Curiosamente, nessa altura o mundo insurgiu-se contra o absurdo.

Por cá, temo que os impulsos para copiar a parvoíce do momento acabem em desgraça. Qualquer coisa como a vandalização do monumento que Cutileiro plantou ali no alto do Parque Eduardo VII.

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João Almeida Moreira

Bolsonaro, curiosidade ou fúria

Perante um fenómeno que nos pareça ultrajante podemos ter uma de duas atitudes: ficar furiosos ou curiosos. Como a fúria é o menos produtivo dos sentimentos, optemos por experimentar curiosidade pela ascensão de Jair Bolsonaro, o candidato de extrema-direita do PSL em quem um em cada três eleitores brasileiros vota, segundo sondagem de segunda-feira do banco BTG Pactual e do Instituto FSB, apesar do seu passado (e presente) machista, xenófobo e homofóbico.