A arte do ridículo

Há não muito tempo assistíamos ao derrube de estátuas alusivas à Confederação norte-americana e por cá chegou a discutir-se a sério - o que é incrível - a possibilidade de mandar retirar a estátua do padre António Vieira, a quem já se chamava criminoso, racista, vil promotor da escravatura. É uma pena que só tentemos copiar os exemplos mais estúpidos do mundo - mas admirável como ninguém se lembrou de que a ponte sobre o Tejo, mandada construir e inaugurada por Salazar, de quem chegou a ter o nome durante muitos anos, também devia ir abaixo...

Primeiro quis-se apagar a história, agora pretende-se fazer um apagão nas artes. A noção do ridículo perdeu-se algures na fogueira das novas bruxas, vítimas de um politicamente correto que é um engodo, uma ditadura armada da censura que noutros tempos os acusadores de hoje combatiam. Uns poucos acham que o que pensam é o melhor para todos e querem impor essa linha de pensamento. Perigosas, estas derivas. Estamos a falar de pessoas que acreditam que o mundo ficaria melhor se um quadro de Balthus fosse retirado do Met. O argumento, simplificado, Thérèse parece uma criança e a sua pose, de cuecas à mostra e ar lânguido enquanto sonha, puxa à exploração sexual e à pedofilia. Não entendem sequer que a perversão talvez esteja na sua própria cabeça. Nem quero pensar o que acontecerá a esta gente quando descobrir os meninos de David Hockney e outros que tais...

Parece que ainda não entendemos que nada de bom pode sair da imposição, seja para apagar personagens históricas, para moralizar a arte ou servindo qualquer outro fim. É um péssimo princípio, independentemente de quão convencidos estejam alguns dos seus próprios argumentos. Nada disto é muito diferente do que sucedeu há dois anos, quando Itália aceitou cobrir as estátuas de nus durante a visita do presidente do Irão. Curiosamente, nessa altura o mundo insurgiu-se contra o absurdo.

Por cá, temo que os impulsos para copiar a parvoíce do momento acabem em desgraça. Qualquer coisa como a vandalização do monumento que Cutileiro plantou ali no alto do Parque Eduardo VII.

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Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.