Discutir ideologia

Na questão da tributação sobre o património, a primeira certeza que podemos ter de que o debate não está a correr bem é a acusação que fazem a Mariana Mortágua por ter dito o que pensava do que deve ser a política fiscal. Pior, a senhora deputada tem ideologia. A acusação não podia ser mais idiota. Mas então para que serviria a política sem ideologia? Se não podemos ter um conjunto de ideias, convicções e princípios filosóficos, sociais e políticos que caracterizem o pensamento de um indivíduo e o grupo a que pertence, como vamos fazer avançar a sociedade a que pertencemos? Com pensamento único?

Claro que a decisão de tributar a acumulação de património superior a meio milhão ou a um milhão é discutível. Fazem bem os que não concordam em apresentar argumentos para convencer a maioria a não avançar por aqui. O receio de que os fundos imobiliários deixem de investir em Portugal ou a possibilidade de existir classe média que é apanhada neste confisco porque se endividou no banco para ter a casa dos seus sonhos são argumentos também eles ideológicos e daí não vem mal ao mundo. Com a troca de argumentos existe a possibilidade de melhorar a proposta final. E, sejamos claros, pouco nos importa que tenha falhado a estratégia de comunicação e que o PS diga uma coisa e o Bloco outra sobre o que estava combinado.

Há quem acredite que a obrigação do Estado é a de gerar uma maior redistribuição da riqueza e quem acredite que a obrigação do Estado é a de se meter o menos possível no andamento da economia. Os políticos devem defender as suas ideologias e nós, eleitores, devemos fazer opções. Para as opções que temos de fazer e para o contributo que temos de dar para o debate político é que não serve de nada fulanizar as questões.

Nem oito nem oitenta. No papel de deputada que Mariana Mortágua representa, de pouco nos deve importar que ela tenha sido transformada numa estrela com a comissão de inquérito ao BES ou, agora, num cometa por dizer que é preciso "perder a vergonha de ir buscar a quem está a acumular dinheiro". Vamos discutir ideias, porque são as ideias que nos fazem avançar. O resto é a política do reality show. Não ajuda nada a resolver o problema da maioria dos portugueses, para quem a crise continua bem presente.

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