Diplomacia do cavalo

Emmanuel Macron foi à China e com ambiciosos planos de fortalecer vendas e de atrair investimentos a França. E, mesmo sabendo não ser nada fácil conseguir uma relação equilibrada (económica e não só) com uma velhíssima civilização prestes a recuperar o estatuto de líder mundial, a favor do presidente francês jogou uma tradicional sensibilidade do seu país para lidar com o Império do Meio.

Afinal não foi Napoleão, há mais de dois séculos, quem avisou que quando a China despertasse o mundo tremeria? E não foi De Gaulle, em plena Guerra Fria, que avançou em 1964 para o reconhecimento da República Popular? Isto quando em vez do comunista Mao era ainda o nacionalista Chiang Kai--shek, aliado aos americanos, que refugiado em Taiwan mantinha o direito de nomear os representantes da China na ONU. Já agora, relembro que Mitterrand, que em tempos escreveu um livro sobre a China e até conheceu Mao, foi em 1983 a Pequim como presidente para tentar vender a um país então recém-envolvido nas reformas económicas de Deng aviões e centrais nucleares, por acaso produtos também na pasta de Macron, mesmo que em vez dos Mirage hoje estejam na calha os Airbus e que na área nuclear a prioridade seja o tratamento de detritos radioativos.

Macron esforçou-se por trazer de volta alguns contratos, e por outro lado pouco falou de questões políticas e muito menos de direitos humanos, mas sem dúvida que conseguiu que a sua visita tivesse impacto. A juventude e o estilo afirmativo do presidente francês agradaram aos chineses, e isto conta sempre como capital para o futuro, sobretudo se a Europa não conseguir falar a uma só voz com Pequim. E a oferta de um cavalo da guarda republicana a Xi Jinping foi uma daquelas cartadas que até Napoleão aplaudiria, um genial piscar de olho ao presidente chinês e à tradição de oferecer pandas às nações amigas. Desta feita, em vez da diplomacia do panda, foi a hora da diplomacia do cavalo.

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