Dácia não é só nome de carro

Qualquer um que tenha tido em miúdo a mania da filatelia aprendeu como é próximo o romeno do português. Saltava à vista nos selos. Há uns meses, a embaixadora da Roménia em Lisboa, Ioana Bivolaru, ensinou-me um provérbio que não só existe em português como se escreve quase da mesma maneira: "Cu un kil de carne si un litru de vin nu se moare de foame" ou "Com um quilo de carne e um litro de vinho não se morre de fome".

Conto isto porque os nossos primos latinos do Leste são desde 2007 parte da União Europeia e, porém, sabemos menos sobre eles do que devíamos. Por isso, uma visita a partir de amanhã ao Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, funcionará como uma introdução à Roménia. É que na Sala do Tesouro vai estar a exposição "Ouro Antigo. Do Mar Negro ao Oceano Atlântico", que coloca em paralelo joias portuguesas e peças romenas.

Ora, justifica-se explicar em breves palavras como se tornou a Roménia falante de uma língua latina, tão implantada que conseguiu resistir a séculos de arremetidas eslavas, húngaras e turcas. A culpa foi de Trajano, o imperador romano nascido mais perto de Portugal (Itálica, atual Santiponce, nos arredores de Sevilha). Perante a resistência dos dácios, ordenou uma tremenda campanha militar no início do século II; e depois de derrotado o povo local enviou para as suas terras colonos oriundos de Itália, que com os tempos acabaram por se misturar com os sobreviventes dácios. Para celebrar essa vitória, continua em Roma a Coluna de Trajano, cuja decoração é como se fosse o relato da guerra.

Dácia é, pois, muito mais do que uma marca romena de carros (vendeu quase seis mil em 2016 em Portugal), criada nos tempos de Ceausescu e agora parte do grupo Renault. E entre as magníficas peças romenas que vão estar expostas, e que só vi ainda em fotografia, impressionou-me o elmo de Cotofenesti, datado do século IV a.C. (dácio, portanto). Encontrou-o há quase cem anos uma criança romena chamada... Traian.

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