A Arábia Saudita também se move

Conheço um pouco do mundo islâmico, desde esse Marrocos onde fiz a minha primeira reportagem para o DN em 1993 até ao Afeganistão, passando pelo Irão, que visitei no final do ano passado. Posso, assim, depois de ter estado agora na Arábia Saudita, arriscar algumas comparações: claro que é um país bem mais conservador do que a Turquia ou a Tunísia ou mesmo o Egito, ainda que algumas ideias feitas como a obrigatoriedade de cobrir o cabelo não seja verdade para as não muçulmanas, como pude testemunhar em Riade. E se ocultar o rosto com o niqab é opcional para as sauditas, devo também dizer que a maioria das que vi na capital, de facto, só mostravam os olhos. Já em termos de liberdade de movimento - e só estive em Riade - não senti restrições, bastando apanhar um táxi na rua e garantir que o taxista paquistanês (em regra) percebia o local para onde queria ir. Grande diferença para esse Iraque que conheci nos tempos de Saddam e que me impunha um guia/espião. Surpreendeu-me também o acesso livre à internet, incluído o Facebook, que três meses antes percebi estar bloqueado em Teerão, mesmo que qualquer jovem iraniano soubesse como contornar.

Mas, mais do que fazer comparações com o resto do mundo islâmico, é pertinente dizer que muito está a mudar na Arábia Saudita. Nestes três anos desde que o rei Salman assumiu o trono acumulam-se os anúncios surpreendentes, desde o favorecimento de um islão mais moderado à autorização para a partir de junho as mulheres poderem conduzir, passando pela autorização de ambos os sexos, em família, irem a estádios de futebol ou a notícia de que um Teatro de Ópera vai ser construído no reino. Aliás, nos dias que passei lá, sempre que abria o Arab News, diário em inglês, descobria uma novidade relacionada com o rei ou com o príncipe herdeiro, o seu filho Mohammed bin Salman, como a hipótese de admitir mulheres nas Forças Armadas ou a nomeação de uma vice-ministra da Educação.

Salman, o sexto filho de Abdulaziz bin Saud, fundador da Arábia Saudita, a reinar, sempre teve fama de pragmático, mas muitas das mudanças em curso, a tal Visão 2030, nasceram da necessidade de libertar o país da excessiva dependência do petróleo. Porém, se a economia explica a abertura do mercado de trabalho às mulheres cada vez mais maioritárias nas universidades, já tantas mudanças em conjunto só podem resultar de uma verdadeira vontade de modernização por parte do rei de 82 anos e do filho de 32.

Mas um modernizador não tem de ser um democrata, sobretudo no que diz respeito ao exercício do poder (pensemos nos grandes Atatürk e Burguiba). Claro que o monarca e o herdeiro continuarão a manter um controlo firme, como se vê pela reação às críticas ao modo como decorre a intervenção no Iémen (uma das várias guerras por procuração com o Irão). Por outro lado, só um controlo firme do poder permitirá que a abertura social prossiga, até porque, se o povo está entusiasmado (sobretudo os jovens, e 70% da população tem menos de 30 anos), haverá de certeza quem não goste de ver a Arábia Saudita virar costas ao ultraconservadorismo.

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG