Teste de stresse

A chegada ao Parlamento do Partido de André Ventura, agora musculado à força de doze deputados, vai ser um autêntico teste de stress à nossa democracia e à nossa Constituição. Não uma daquelas simulações a que são submetidos os bancos para avaliar a sua resiliência a crises, mas um teste real que colocará o país político perante um desafio cheio de novidades, muitas das quais potencialmente perigosas.

Perante a maioria absoluta conquistada nas urnas pelo Partido Socialista, os partidos da oposição procurarão desenvolver estratégias de combate político que desloquem o centro da ação para fora do Parlamento. Não será, pois, de estranhar que PCP e Bloco desçam à rua e que PSD e IL se colem a lutas corporativas, cavalgando na agenda reivindicativa de grupos como os professores, os enfermeiros ou os empresários. Quanto ao Chega, temo que tente escalar o método Ventura, que é o de incendiar o país com intervenções populistas, recorrendo ao rol de insultos, inverdades e imprecisões a que nos habituou.

O mote foi dado na noite eleitoral de 30 de janeiro, quando Ventura verbalizou o famoso "Costa, eu vou atrás de ti". Francamente, só me lembro de ouvir este tipo de frase naqueles filmes de mafiosos, em que o padrinho marca a sua vítima. Esta ameaça foi o tiro de partida para uma confrontação que testará a resiliência da nossa democracia.

As primeiras escaramuças já deram sinais de que a vida do "perseguidor" também poderá não ser fácil. Primeiro, o primeiro ministro indigitado, António Costa, num exercício que não decorre de obrigação legal ou constitucional, resolveu ouvir os partidos e excluiu Ventura. Alguns dizem que isso não é aceitável, nem democrático. Bom, Costa foi claro na campanha, ao assegurar que não contava com o Chega para qualquer conversa sobre governação. Em boa verdade, o Chega disse o mesmo do PS. Portanto, Costa está a cumprir com a sua palavra e com as suas convicções.

O segundo incidente está pré-anunciado. No Parlamento, o Chega terá dificuldade em fazer eleger um vice-presidente. Seguramente, não será Diogo Pacheco de Amorim, cujo passado fascista e pensamento político me escuso de comentar nesta crónica. Veremos se outro nome merecerá o número de votos necessário ou se, como aconteceu no parlamento europeu, a cerca sanitária levantada pelos restantes deputados inviabilizará a eleição de qualquer vice-presidente da extrema direita.

O meu palpite é que o teste de stresse ao sistema vai ser facilitado pela natureza do Chega. Ao contrário do que acontece com os partidos radicais de direita noutros países do centro e norte da Europa, o Chega é um molho de espinhos, praticamente despido de ideologia, pensamento político ou ação consistente, atado por um líder que nasceu da macacada dos debates futebolísticos. A prova da sua fragilidade é o perfil dos seus quadros, candidatos e eleitos. O líder condenado, a vereadora de Benavente também condenada, o secretário-geral que se demite por não ter tido um lugar no "odiado" sistema são exemplos que acrescem à qualidade paupérrima já evidenciada nas últimas autárquicas.

A aglutinação dos descontentes garantiu ao Chega um sucesso eleitoral. Mas agora, estes eleitores quererão ver o que o partido pode fazer por eles. Ventura, habituado a ser o dono do palco, vai ter de dividir protagonismo e, estimo eu, haverá fraturas expostas, mais tarde ou mais cedo. Quando assim é, o sistema ganha sempre e sobrevive ao teste de stresse.

Professor universitário

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