O luto acaba por ser o lugar que só conhecemos quando chegamos." Joan Didion, que tinha o hábito de escrever verdades reconhecidas por todos os que ainda não as haviam descoberto, chegou ao luto tarde, ainda que cedo de mais..A pouco mais de um mês do 40.º aniversário do seu casamento, o marido - o jornalista e argumentista John Gregory Dunne - sofreu um ataque cardíaco fatal à mesa de jantar, diante de si. Ano e meio mais tarde, a filha adotiva de ambos faleceria precocemente, aos 39 anos. Joan Didion, viúva, sem família, respondeu à dor como havia feito a qualquer injustiça, a qualquer impressão com que se cruzara ao longo do seu percurso de quatro décadas de jornalismo: escreveu.."O luto não tem distância. Vem em ondas, espasmos, pequenas apreensões que nos enfraquecem os joelhos, nos toldam a visão, nos obliteram o dia-a-dia.".Primeiro, em 2005, com O Ano do Pensamento Mágico, que foi finalista do Pulitzer nesse ano, Didion autobiografou o matrimónio. Depois, em 2011, com Noites Azuis, em jeito de memórias, relatou o sentimento de orfandade inversa que foi perder uma filha. Através de ambos, a jornalista californiana eternizou-se na literatura como uma autoridade contemporânea em luto. Seria condecorada por Barack Obama dois anos depois com a medalha nacional de artes..Didion, que morreu nesta quinta-feira no seu apartamento em Nova Iorque, vítima de Parkinson, não deixou entes queridos. O que tinha perdeu em vida. E do que perdeu fez obra..Filha de um militar e de uma dona de casa, viveu uma infância itinerante, atrás de cada colocação do pai. E a educação sem raízes semearia frutos. Didion nunca seria senhora de uma só terra, alternando o local de residência entre o seu Estado natal e Manhattan durante a maior da vida. Estudaria em Berkeley, na Califórnia, mas escreveria para todo o lado - e sobre todo o lado..Crescer invariavelmente de malas à porta gerou o hábito. O seu jornalismo flaneur, em permanente deambulação, transbordaria para os seus primeiros romances, em que a jornada é a expressão mais apurada dos seus protagonistas. Joan Didion cresceu sem uma rua sua, sem um bairro seu, sem uma casa sua. A América era a sua casa. A sua hipersensibilidade ao sentimento de deslocação encontra aí a sua origem. A sua procura sobre o que era, de facto, a América do pós-guerra, nasce de a ter visto vestida de várias peles. Em Miami, publicado em 1987, explora-a, submergindo na realidade dos imigrantes cubanos na Florida. Em Salvador, quatro anos antes, fizera o mesmo num relato sobre os efeitos da guerra civil e de um terramoto em El Salvador..O seu primeiro emprego, na Vogue, chegaria como reivindicação. Depois de um artigo seu ser selecionado pela revista, Didion recusa uma viagem a Paris como prémio e pede algo mais simples: queria trabalhar.."O caos é a realidade", escrevia. Não era, claro, jornalismo tradicional. Era uma outra coisa. Não órfã de factos, mas portadora das suas próprias perceções. Não desfocada dos demais, mas com uma perspetiva assumida. Não autocentrada, mas dedicada ao "outro" através de si mesma. Como Hunter S. Thompson e Tom Wolfe, Joan Didion colocava o jornalista dentro da história. Uma narração sem distância, como testemunho, como experiência, quase como uma autobiografia em que a catarse do sofrimento alheio é feita em quem escreve e, depois, em quem lê..Didion assinaria artigos para a Esquire, para a National Review, para a The New Yorker e para a Life. Os seus ensaios sobre a Califórnia seriam publicados em antologia cedo e com êxito: Slouching towards Bethlehem, em 1968, e White Album, em 1979. Com o marido, também jornalista, escreveria guiões para filmes de Hollywood com Barbra Streisand, Robert de Niro e Michelle Pfeiffer..No documentário sobre ambos (The Center Will Not Hold), disponível na Netflix, ganha-se acesso à história do casal, visualizando a perda já retratada em livro. Nas estantes, veem-se lombadas de Steinbeck e Conrad. Nas entrevistas, uma capacidade de memória notável da parte de Didion. Nas suas respostas, uma emoção, como nas suas reportagens, desconfortável, frágil, seca, humana.."Não podia deitar fora os sapatos dele. E se ele voltasse?".Colunista