Ocidente? Que ocidente?

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Em matéria de valores e princípios, há hoje dois Ocidentes, como há duas Américas e duas Europas. A distinção ficou clara ao longo de 2025 e vai ter de clarificar-se melhor em 2026.

A razão da secessão, segundo a vulgata comunicacional posta a circular como se fosse a verdade das verdades, é que parte do Ocidente abandonou os “valores ocidentais” e a Aliança Transatlântica para se entregar a egoísmos isolacionistas e se entender com “os maus”, os não-ocidentais. E fê-lo ou fá-lo porque já não é democrática, mas autocrática e porque já não pensa politicamente, mas só economicamente, com a agravante de misturar interesses públicos com negócios privados, como é próprio dos vilões.

Ora na Europa, como na América, o Ocidente está dividido, sim, mas as razões e os contornos da divisão parecem ser outros.

Na Europa, a Comissão de Bruxelas e o terceto Merz, Macron, Starmer querem o globalismo, querem o federalismo, querem as fronteiras abertas, querem manter a guerra da Ucrânia, querem controlar e censurar a comunicação social no espaço europeu, querem debilitar os Estados nacionais, querem combater a América de Trump e os países e partidos que, na Europa, se identificam com os valores nacionalistas, conservadores e populares que triunfaram na América mas que agora são implícita e explicitamente denunciados e combatidos como valores “não-europeus” e “não-ocidentais”.

A campeã dos valores agora repudiados, o novo porta-estandarte do Anti-Ocidente é, evidentemente, a América que ganhou as eleições em 5 de Novembro de 2024, elegendo Trump, o falso messias, e dando maioria aos republicanos nas duas câmaras do Congresso; a mesma América que – com inteligência, apesar da aparente arracionalidade, e com força, apesar da eventual brutalidade – está a pôr alguma ordem e paz no mundo. É a América profunda, a de Hamilton e dos Federalist Papers, a das guerras índias e mexicanas de Andrew Jackson, a da conquista do Oeste, a dos primeiros populistas, a que no século passado se tornou, em duas guerras, um poder mundial. É uma América que é religiosa e que sabe que ser mulher ou ser homem são realidades com uma incontornável determinante biológica; uma América que quer abraçar a tradição e combater o repúdio alheio por valores que considera vitais para o Ocidente e que vê comprometidos pelas derivas dos que parecem reivindicar todo um outro Ocidente.

Porque há outro Ocidente, outra América com outros valores, outros interesses; a América que perdeu as eleições em 5 de Novembro de 2024 mas que tem os seus nichos, os seus recursos; uma América que reivindica o tipo de Ocidente que ainda domina a Europa a partir das instituições de Bruxelas e de comissários que se arrogam o direito de estabelecer linhas gerais e de impor sanções e “novos valores” aos povos. Acontece que esse Ocidente mais arrivista nos deixou uma Europa onde as desigualdades, a desindustrialização, a descaracterização, o delírio socio-cultural em nome de uma retórica interessada de diversidade, inclusão e sustentabilidade, têm vindo a conduzir à decadência e a causar revolta.

Em 2026, vai caber aos europeus escolher, pelo voto, entre dois ocidentes: o Ocidente dos valores vitais – o cristianismo, o nacionalismo, a defesa da vida e da família, o respeito pela realidade, seja ela biológica ou geopolítica – e o Ocidente das ficções globais.

Não fora o carácter orwelliano das ficções globais e o esforço investido na sua massiva e insidiosa disseminação e poucos teriam dúvidas.

Politólogo e escritor

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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