Obviamente, demita-se

A passagem de informação sobre cidadãos portugueses para potências estrangeiras é extremamente grave e não pode ficar-se por um inócuo pedido de desculpas e um mero processo interno de averiguações, pois tanto quanto se sabe os serviços limitaram-se a cumprir as regras instituídas na autarquia.

A vida de cidadãos portugueses ficou em perigo quando a Câmara forneceu os seus dados a potências estrangeiras, algumas das quais como Israel, a Rússia e os Estados Unidos são conhecidos por raptar, prender, torturar e até assassinar os que se lhe opõem classificando-os de terroristas sem hipóteses de defesa em tribunais civis.

Que proteção deve agora o Estado português assegurar aos defensores dos direitos da Palestina, aos opositores a Putin, ou aos que se manifestam pela Paz contra as guerras americanas? Está a ser dada? De quem a responsabilidade se vierem a desaparecer ou a ser assassinados?

Porque o caso é grave e público, no sentido de ser conhecido no estrangeiro, incluindo na União Europeia, Medina veio pedir desculpas. Literalmente "para inglês, ou alemão, ver". Em vários outros países a delação de cidadãos nacionais a potências estrangeiras poderia ser considerada como traição, razão suficiente para demissão e até acusação pelo Ministério Pública e investigação pelas forças de segurança.

Para quem vai a lealdade das autoridades camarárias lisboetas? Para os portugueses ou para potências como a Rússia ou Israel?

Importante também é saber que atitude toma o Governo perante esta situação? Cauciona-a? Reprova-a? Intervém para afastar os responsáveis? A passividade é total. E quando a passividade é total é porque a conivência é absoluta.

Que fazem os serviços de segurança interna perante uma situação em que uma Câmara municipal passa, durante anos, informações sigilosas a potencias estrangeiras? Nada detetaram? Se detetaram quem alertaram? Era importante saber a resposta a estas perguntas. Elas estão, certamente, a ser feitas em outras geografias. A confiança nestes serviços fica, naturalmente, muito comprometida.

A reputação de Portugal volta a sofrer um rude golpe, quer como país preocupado com os seus cidadãos e os refugiados e imigrantes que acolhe, quer como país capaz de detetar e controlar fugas de informação, quer mesmo como país em que os dirigentes assumem a responsabilidade pelo atos que cometem.

Em Portugal, quatro décadas volvidas sobre o 25 de Abril, persiste entre as elites governantes uma cultura do "quero, posso e mando" que as coloca acima da Lei e lhes garante total imunidade em tudo o que fazem de errado, corrupto e ilegal. É tempo de mudar.

Medina, mesmo muito contestado e polémico, tem feito obra em Lisboa. Globalmente a sua gestão em coligação com o Bloco de Esquerda pode até ser considerada positiva. Mas tal não justifica tamanho erro (para usar uma palavra neutra). Tudo desaparece perante a delação de portugueses e refugiados a potências estrangeiras.

Obviamente, demita-se.

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