O voto antecipado é um voto irrefletido?

Nas próximas duas semanas é pouco provável que aconteça algo de tão extraordinário que leve muita gente a mudar de voto ou a decidir o que não decidiu até aqui. Ou seja, mesmo acreditando que ainda há muitos indecisos, o mais provável é que acabem por fazer a sua opção com base em informação de que já dispõem. O Presidente da República, que se mostrou muito satisfeito com o nível dos debates, na sua versão de analista, considerou que o nível de esclarecimento é tão grande que os portugueses podem ir votar em massa no dia 23. Marcelo acha que há uma percentagem muito grande de portugueses para quem pouco importa o que vai ser dito e vai acontecer em campanha, pelo menos na última semana.

Seja por isso, porque já têm tudo muito claro na cabeça, seja por receio de não poderem deslocar-se à mesa de voto no dia 30 ou não quererem correr o risco de acabarem contagiados, espera-se uma grande adesão ao voto antecipado. O que esses eleitores não vão poder exigir é que se pare a campanha no sábado, dia 22, para poderem refletir, como vai acontecer com os eleitores do domingo seguinte, que não vão ter ninguém a tentar convencê-los à ultima hora, no sábado, dia 29. Os de dia 23, os do voto antecipado, podem até ir no meio da caravana e fazer um desvio para a mesa de voto.

Por aqui se percebe como o dia de reflexão é um anacronismo da nossa democracia. Pode ter feito sentido, quando foi criado, mas é totalmente injustificado num tempo em que é necessário alargar o voto antecipado, fazendo que uns eleitores estejam defendidos de "toda a atividade passível de influenciar, ainda que indiretamente, quanto ao sentido de voto, bem como a exibição, junto das mesas de voto, de símbolos, siglas, sinais, distintivos ou autocolantes de quaisquer listas" e outros sejam parte de tudo o que acontecer em campanha.

Basta pensarmos que no primeiro dia de campanha a grande questão foi a brincadeira/ignorância/lapso/gafe de Rio sobre o voto antecipado de Costa, logo transformada em crime de lesa-democracia pelos seus adversários. Na verdade, o líder do PSD precisa de saber que os indecisos dificilmente se convencem com incidentes de campanha, preferindo, talvez, que lhes falem do modo como pretendem fazer deste país um país melhor. Mas o mais certo é que no primeiro dia tenha sido Rui Rio para no dia seguinte ser outro qualquer. Desta forma, os eleitores antecipados devem chegar ao dia 23 com casos e casinhos de campanha em dose suficiente para dispensar o dia de reflexão.

Hoje há um debate, na RTP, com os nove representantes dos partidos que têm representação parlamentar e deve voltar a discussão programática do grupo dos nove. Aproveitem, pode ser das últimas oportunidades para conhecer as ideias dos que querem governar-nos. Depois ainda há o debate das rádios, novamente com todos, mas como o PSD não consegue um acordo para entrar a partir de Bragança ou substituir Rui Rio por outro dirigente, é mais do que certo que esse dia não será marcado pelas ideias de cada um, mas pelo que cada um tem a dizer da ausência do PSD.

Jornalista

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