O verdadeiro desafio:  liderar equipas distribuídas

Num mundo SAP cada vez mais global, a tecnologia aproxima, mas é a liderança que faz a diferença.
Gisela Santos

Business Unit General manager na Axians Portugal

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Na última década, Portugal tornou‑se um ponto de referência na operação internacional de serviços SAP [Sistemas, Aplicações e Produtos]. Esta evolução trouxe consigo equipas distribuídas por várias localizações, integradas em projetos de grande escala e com diferentes realidades culturais. Contudo, o maior desafio deste modelo não está na distância física, nem nas ferramentas tecnológicas que o suportam. Está na liderança.

Liderar equipas SAP distribuídas exige uma forma de pensar distinta daquela que, durante décadas, marcou a gestão tradicional de projeto. O foco deixa de ser o controlo minucioso de tarefas para se tornar numa capacidade mais exigente: promover colaboração, autonomia e alinhamento numa equipa que raramente se encontra presencialmente. Ao longo do meu percurso, aprendi algumas lições que considero essenciais.

A clareza supera o controlo

Quando uma equipa não partilha o mesmo espaço, desaparecem os pequenos sinais informais que tantas vezes ajudam a orientar o trabalho. Por isso, a clareza ganha um papel determinante. É necessário explicar o propósito, definir responsabilidades e estabelecer prioridades com rigor. Não se trata de impor rigidez, mas de garantir que cada pessoa sabe exatamente o que se espera dela e pode trabalhar com confiança. Equipas bem orientadas não precisam de vigilância constante, precisam de direção.

A cultura não acontece por acaso

Nos ambientes presenciais, a cultura emerge muitas vezes de forma espontânea: conversas de corredor, momentos informais, rituais que se consolidam com o tempo. Em equipas distribuídas, nada disto é garantido. A cultura tem de ser construída de forma deliberada. Significa criar rituais digitais, promover espaços de partilha, reforçar valores, celebrar conquistas e assegurar que cada pessoa sente que pertence a algo maior do que o seu ecrã. Uma cultura forte não elimina a distância, mas reduz drasticamente o seu impacto.

A confiança é a base

A tentação da microgestão cresce quando os líderes não conseguem “ver” o trabalho acontecer.  Contudo, este impulso apenas fragiliza o desempenho e reduz a autonomia. Equipas distribuídas funcionam melhor quando assentam na confiança: confiança na competência de cada profissional, na sua capacidade de decisão e no seu sentido de responsabilidade. Substituir a supervisão constante por mecanismos de acompanhamento claros é essencial para criar equipas mais maduras e eficazes. Quando a confiança existe, a produtividade aumenta e o espírito de equipa fortalece‑se.

A comunicação é uma competência de liderança

A comunicação perde naturalidade quando não existe contacto presencial. Uma mensagem menos clara pode gerar mal‑entendidos que se amplificam com a distância. O que antes se resolvia numa conversa rápida passa a exigir intenção: comunicar melhor, de forma mais clara e mais frequente. Liderar equipas globais implica tornar‑se num comunicador de excelência. Exige escuta ativa, antecipação de dúvidas, reforço de mensagens e criação de um contexto onde a informação circula sem fricção. O alinhamento não acontece por osmose, é construído todos os dias.

Hoje, as equipas distribuídas são uma realidade estrutural das organizações tecnológicas, e o setor SAP não é exceção. Mas o sucesso deste modelo não depende do número de países envolvidos. Depende da liderança. Liderar neste contexto significa inspirar, orientar, unir e criar as condições para que cada pessoa contribua para algo maior. E isso, mais do que um desafio, é uma oportunidade transformadora.

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