O único voto que é verdadeiramente "inútil"

Acredito que, ao contrário do que sucedeu em 2015, manteremos a boa prática democrática de permitir que governe (mesmo em minoria) o partido que vencer as eleições e que a estabilidade do governo seja alcançada pela capacidade de diálogo do governo minoritário. Logo, no essencial importa saber qual dos partidos ficará à frente - PS ou PSD - e não tanto se existirá uma maioria de partidos de direita ou de esquerda que possa sustentar ou derrubar o governo saído das urnas. Por essa razão, a discussão sobre o voto útil voltou a ganhar a relevância que era tradicional até 2015 (quando a geringonça, com dissimulação e sem pré-aviso, derrubou, no parlamento, a coligação que saíra vitoriosa das urnas). Mas é um erro simplificar a discussão sobre o voto útil (como se constatou a partir da fraca reação obtida - de acordo com os estudos de opinião - pela dramatização do PS em torno de uma inverosímil maioria absoluta). Considero que a proliferação de partidos, desde que fundados no escrupuloso respeito pelos direitos fundamentais e por uma visão aberta da sociedade, qualifica a democracia e combate a abstenção. Pelo que, na minha opinião, qualquer tentativa de dramatização ou condicionamento dos eleitores, por parte dos dois grandes partidos, procurando restringir as suas opções, além de errado, é eleitoralmente ineficiente.

Assim, considero que, com exceção do Chega, o voto nos outros partidos pequenos (nomeadamente nos partidos com atual representação parlamentar - CDU, BE, CDS, IL, PAN e Livre) é um voto útil - tão útil como nos grandes partidos - na medida em que obrigarão o partido que vencer as eleições a negociar - beneficiando da diversidade de pontos de vista que reflete a opinião dos cidadãos - coligações de governo ou acordos de incidência parlamentar ou ainda entendimentos para diplomas específicos (como o orçamento). Ora, o mesmo tipo de "utilidade" não se aplica ao Chega. Em primeiro lugar, porque o Chega é um partido xenófobo, racista, extremista e populista que não respeita a dignidade e liberdade da pessoa e os princípios essenciais de tolerância e de solidariedade. Qualquer voto neste partido desqualifica a democracia e envergonha Portugal no contexto internacional. Em segundo lugar, porque tanto o PS como o PSD já deixaram claro que não contarão com os votos dos deputados do Chega para qualquer negociação. Zero. O que significa que os potenciais eleitores do Chega estão confrontados com uma escolha essencial: aqueles para os quais é indiferente saber quem vence as eleições - na medida em que apenas querem enviar um voto de protesto dirigido a todo o sistema democrático - têm uma escolha simples a realizar e a utilidade do seu voto no Chega é a de aferirmos o grau de doença do sistema político; mas os outros potenciais eleitores do Chega que apenas votam neste partido porque, desejando a derrota do PS, querem condicionar a agenda de um futuro governo liderado pelo PSD, arriscam-se a ter uma participação inútil e até prejudicial nesse desígnio. Isto é, o seu voto não dará nenhum contributo para uma futura solução de centro-direita (dado que Rui Rio - e bem - já disse que não negociará em qualquer circunstância com os deputados do Chega) e poderá mesmo contribuir, ao retirar votos ao PSD, para dar uma vitória tangencial ao PS e, por essa via, para a sua continuidade no governo (minoritário ou suportado numa nova geringonça). Isso é tanto mais grave quanto o PSD e o seu líder merecem vencer as eleições e o lançamento de uma nova vaga de reformas estruturais está disso dependente.

Este Chega, amorfo de ideais e prenhe de preconceitos populistas, é imprestável para Portugal, à direita ou à esquerda. E todos os demais partidos, quaisquer que sejam as consequências dessa opção, têm de recusar os seus perversos préstimos.

Militante do PSD

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