O ucraniano Simon Wiesenthal deve ser esquecido?

Há uma paixão dos militantes neonazis europeus pela causa ucraniana que leva muitos deles a anunciarem a ida para a Ucrânia, para integrarem uma legião estrangeira de combate à invasão russa. Alguns portugueses dessa estirpe até tiveram honras de peça jornalística, o que para eles foi certamente um grande momento de propaganda.

Para além de não entender como é que outros voluntários não nazis, autoproclamados defensores da democracia, conseguem conviver com estes camaradas de armas, também me é difícil discernir como é que um presidente judeu, Volodymyr Zelensky, aceita esta contribuição mas, enfim, dou como desculpa o desespero da situação vivida com a invasão russa...

Simon Wiesenthal, o célebre caçador de nazis, nasceu em 1908 na Ucrânia. Foi lá que a II Guerra Mundial o apanhou. Quando os nazis ocuparam a cidade de Lviv, Wiesenthal e outros residentes judeus foram obrigados a construir, em regime de trabalho forçado, um gueto.

Em 1941 todos os judeus de Lviv foram obrigados a abandonar as suas casas e a irem para o gueto. Vários milhares foram assassinados por ucranianos e alemães e o próprio Wiesenthal escapou à morte por pouco mas acabou, com a mulher, por ser transferido para o campo de concentração de Janowska, o primeiro de vários.

Com expediente e sorte, ele e a mulher conseguiram escapar ao processo de extermínio do Holocausto, onde 89 parentes foram assassinados. Três semanas depois de ser libertado do campo de concentração de Mauthausen, onde estava metido no bloco de doentes mortais, sobrevivendo com 200 calorias por dia, Wiesenthal preparou uma lista com cerca de 100 nomes de suspeitos de crimes de guerra nazis - e assim começou um trabalho bem sucedido para levar a tribunal um enorme número dessas pessoas.

No dia 28 de janeiro de 2010 o Centro Wiesenthal, uma organização internacional de direitos humanos, com sede em Los Angeles, que adotou o nome do "caça-nazis", falecido em 2005, emitiu um comunicado a condenar a decisão do então presidente ucraniano, Viktor Yushchenko, por conceder postumamente o titulo de "Herói da Ucrânia", uma das maiores honras do país, a Stepan Bandera.

O Centro Wiesenthal, que é reconhecido pela ONU, pela UNESCO, pela OSCE, pela OEA e pelo Conselho da Europa - nada tem a ver com Putin - descreve Stepan Bandera com estas palavras: "um lider nacionalista ucraniano cujos seguidores mataram milhares de judeus e outros durante a II Guerra Mundial" e acusa o presidente ucraniano de "abraçar o legado de Bandera".

A concluir, a organização que se dedica a preservar a memória do Holocausto exprime "profunda repulsa pela recente homenagem concedida a Stepan Bandera, que colaborou com os nazis nos estágios iniciais da II Guerra Mundial".

As honras dadas pelos políticos ucranianos antirrussos ao nacionalista Bandera não implicam que eles sejam necessariamente nazis mas acarretam, no mínimo, uma responsabilidade no branqueamento e normalização da ideologia nazi, que advoga e tenta a morte de uma parte da humanidade por motivos raciais.

Para um ucraniano democrata esta ligação a Stepan Bandera e ao nazismo comporta, parece-me evidente, um outro crime adicional: sustenta a história da independência da Ucrânia num símbolo moderno de violência genocida, o que compromete a própria razoabilidade politica da aspiração, legítima, dessa independência - fragilidade que Putin tenta, aliás, usar em seu favor.

Após 2014 as autoridades ucranianas legitimaram os combatentes ucranianos que se aliaram aos nazis, mesmo os óbvios criminosos de guerra, e aceitaram a construção de monumentos, a atribuição de nomes de ruas e até uma procissão anual de tochas em homenagem a Bandera.

Além disso integraram o já famoso batalhão Azov, uma milícia voluntária neonazi, na Guarda Nacional ucraniana. Agora juntam-se nazis de toda a Europa, atraídos pelo Estado que faz deles heróis oficiais...

Li, já não sei onde, alguém defender que a memória histórica, a contextualização da guerra na Ucrânia "é uma falácia" que está a servir para ilibar crimes de tiranos como Putin.

É um erro infantil de análise: os crimes de Putin, como é evidente todos os dias, não se conseguem esconder; os de muitos outros, que a história e a contextualização revelam, é que andam ocultos, tranquilizando supostas consciências democratas que deveriam, na realidade, estar sobressaltadas.

Jornalista

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