O Tempo Interno

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O filósofo afirmou que vivemos o passado, o presente e o futuro, como que em simultâneo. Queria ele dizer que, a um nível implícito e sem nos apercebermos, experiências do passado, ou expectativas de futuro, poderem influenciar o meu presente. E não tenho consciência disso. Cá estou eu, envolto em tarefas, o som de música de fundo, o crepúsculo a esbater-se pela janela, o ecrã do computador em frente, textos e trabalho, mas a minha experiência interna não está apenas no aqui e agora. No presente. Sem estar a pensar nisso, na verdade, um acontecimento do passado recente, permanece em mim, como que a corroer os fundos da casa, de forma quase impercetível. À superfície, estou com os olhos nas tarefas. Perto de mim, perguntam-me: estás bem? Claro que estou bem. Estou apenas a tratar das coisas. Porque haveriam de perguntar. É que estás com um olhar estranho. Ainda me dizem. Só depois de permitir sair de uma espécie de teimosia estóica é que começo de facto a olhar para mim. Desfaço-me um pouco dessa atenção que está sempre projetada para fora. Dou por mim, agora, a perscrutar por entre pensamentos e memórias. Apercebo-me, então, daquela situação profissional que ocorreu há dias e que envolveu outros colegas. Sim, está a afetar-me. Primeiro era só um incómodo, uma espécie de azia de alma, mas depois transformou-se num ambiente interno que se instalou. E assim, ainda que implicitamente, aquele evento passado está no meu presente. Uma parte de mim deambula em preocupações, em interrogações, que me leva a um determinado estado de espírito. E não são apenas pensamentos, são atmosferas emocionais. Em termos de realidade interna de ser, a minha experiência, não se situa apenas no presente. É como se múltiplos pontos se intersetassem entre si, influenciando-se mutuamente, sem que que tenha ativamente de fazer algo para isso. Um acontecimento do passado recente que me preocupa, os trabalhos que tenho em mãos neste momento, o ambiente na casa, no agora, e, apercebo-me também, que na realidade antecipo outros acontecimentos de futuro. Mesmo as de envolvente mais genérica. Como será este mundo que está em guerra no coração da Europa? Até às interrogações mais próximas. Será que os miúdos se vão dar bem este ano? Os estudos, mas também, as suas relações, as suas aspirações.

Antecipar o futuro. Ora entusiasma, ora, angustia. Que turbilhão. Blake, recordou-nos que todo um mundo se encerra num grão de areia. A metáfora é adequada. Nuns minutos de tempo objetivo, a nossa experiência interna e subjetiva, é experienciada como uma espécie de tempo em extensão. Como se fosse o fio de um colar de pérolas, como acrescentou outro filósofo, que une pontos de experiência vividas. As do momento, as do passado, e as que que antecipamos. Não acedemos a todas, de forma imediata e em consciência, mas elas estão lá. Isto é, em mim. E influenciam-me. Como penso, como me sinto.

E, no entanto, os tempos atuais, parecem conduzir-nos para uma ditadura do tempo objetivo. Que se caracteriza por nos colocar, quase exclusivamente, numa atenção focada no externo. E no imediato. Este tempo parece feito da espessura de uma película, onde fluem enxurradas de imagens, a todo o momento, em todo lado. A verborreia da imagem -- uma imageorreia. Um caudal sem fim. A repetição de imagens, de notícias, de publicidade, de posts, de partilhas, de histórias. Mas de histórias que se baseiam no repentino, na brevidade, no inócuo. Transmitir algo a alguém, hoje, é medido pelo segundo. Caso contrário, mudam rapidamente de página. Dizem. E ai do download que demore mais do que 10 segundos! Acrescentam. Os nossos olhos parecem aquelas máquinas, com rolos enormes, que imprimem os jornais a uma velocidade vertiginosa. Estímulo atrás de estímulo, impressos na íris. Fluem, como se rios de informação se tratassem. De dados, não necessariamente de informação, e talvez menos ainda de conhecimento. Um tempo sem tempo, ou por outra, um tempo em que o presente parece não ter espessura. De pensar, de reflexão. Contemplar? Mas também há apps para isso! Insistem. Mas o meu mundo interno, o mundo vivido, carece de um outro tempo. E a temporalidade de ser, de mergulhar e compreender um pouco melhor os ambientes internos, nem sempre se coaduna com esta azáfama exterior. Desconsideramos o banal, no sentido do simples. E desacreditamos o tédio, como raiz da criatividade e do pensar.

Diretor Clínica ISPA

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