No passado domingo não resultou, como era previsível, a escolha definitiva do próximo Presidente da República. A segunda volta será disputada entre António José Seguro e André Ventura. Do lado de Seguro uma vaga de fundo pela defesa da democracia e o desejo de ser o Presidente de todos os portugueses. Do lado de Ventura a promessa de transformar o país numa permanente manta de retalhos do ressentimento e do extremismo.Perante este cenário esperava-se uma posição clara do primeiro-ministro. O país assistiu a i um estridente e ensurdecedor silêncio. Um silêncio que não significa prudência ou respeito pelo eleitorado, e muito menos equidistância institucional. O silêncio de Montenegro vilipendia o legado social democrata de Sá Carneiro e revela aquilo que este sempre recusou: a escola de sobrevivência política a qualquer preço.Tudo tem uma razão . Montenegro está refém de André Ventura porque depende do voto do Chega para fazer passar a agenda do Governo. Nesta agenda, com medidas ocultadas dos portugueses, destaca-se a reforma da legislação laboral. A palavra reforma na boca da direita é um lugar comum. Na prática o que está em causa é a vontade de flexibilizar, um eufemismo para mais precarização e uma tentativa cínica de rasgar o Direito do Trabalho.Ventura não é fiável. Deu sinais de que viabilizaria a reforma da legislação laboral mas bastou sentir o desconforto popular para inverter o discurso. Eis o populismo no seu esplendor. A incoerência de Ventura não é acidente, é metodologia. Ventura diz hoje o que lhe convém, para amanhã dizer o seu contrário. Montenegro sabe e paradoxalmente é exatamente por isso que é conivente: porque depende de alguém que muda de posição ao ritmo da vox populi.Sá Carneiro perante uma segunda volta entre Seguro e Ventura, afirmaria sem hesitações que o extremismo não se normaliza. "Não é não" deveria ser uma fronteira moral. Para Montenegro é um slogan.Caso Montenegro declarasse apoio a Seguro, não estaria a trair o ideal da social-democracia. Pelo contrário, reforçava o posicionamento democrático contra o populismo extremista, e impedia que a direita portuguesa fosse empurrada para um beco onde a raiva substitui a política e o insulto substitui a governação. Montenegro preferiu o caminho do meio, esse lugar confortável onde se tenta parecer acima do conflito, enquanto se negocia atrás da cortina, longe do olhar público.É aqui, atrás da cortina que o "não é não" de Montenegro se transforma no "não é não, a menos que coloque em causa a minha sobrevivência política".Mas esta postura não é apenas de Montenegro. Na verdade, apenas percorre o caminho aberto por Carlos Moedas, que dirige Lisboa com um entendimento de bastidores e lugares com o Chega, cuidadosamente protegido da luz do escrutínio público e pelo falso moralismo que quem apelida de radicais todos os que lhe fazem oposição. A estratégia é a mesma: publicamente, distância, na prática, dependência. Publicamente, indignação, nos momentos decisivos, pragmatismo.A democracia perde-se com silêncios calculados, neutralidades estratégicas e o medo de confrontar os Venturas que crescem graças ao ressentimento e ao incentivo do conflito. Quando o centro abdica de liderar, o espaço é ocupado por quem quer dominar. No passado domingo, o país ficou a saber quem vai à segunda volta. Mas também ficou a saber outra coisa: há quem prefira calar-se para não perder um voto no Parlamento, mesmo que isso seja um tiro fatal no coração da social-democracia.*Presidente do PS Lisboa