O silêncio dos cúmplices

Ter memória curta ajuda a apagar factos dos quais não nos queremos lembrar ou que, noutra formulação, nos lembramos que devemos esquecer.

Uma década é muito tempo.

Ainda por cima, se for uma década como a última que vivemos coletivamente, que começou com o pedido de resgate e acabou com uma pandemia. Duas crises de origem diferente mas que, tirando as questões sanitárias, são parecidas - mais desemprego, menos igualdade, menos oportunidades, menos recursos, a classe média a viver pior, um país deprimido e sem esperança.

Mas as experiências traumáticas da década de 2011 a 2021 não podem fazer esquecer os seis anos anteriores, os da governação de Sócrates - e do PS -, quatro deles com maioria absoluta, muitas vezes confundida com poder absoluto.

Soares, Presidente, lutou quanto pôde no final do cavaquismo, contra o que chamou "ditadura da maioria". Não usou as mesmas palavras quando práticas semelhantes foram imitadas por um governo do seu PS. Pelo contrário. Chancelou sempre Sócrates, antes e depois de ser PM, e foi o socialista que mais visitou o amigo em Évora.

António Costa, que foi número dois de Sócrates, arrumou a amizade e a camaradagem com o antigo chefe do partido e do governo numa visita natalícia, dizendo à saída da prisão que Sócrates tinha direito "à sua verdade". Estava dito. Isto e a outra célebre frase que só serve para evitar responder a perguntas legítimas e incómodas: "À justiça o que é da justiça, à política o que é da política." Uma enunciação que em si não quer dizer nada, apenas se trata de uma estratégia de fuga diante do escrutínio público.

O PS de Sócrates, os seus camaradas no partido e os seus colegas no governo estão, hoje, com "desgosto", como anunciou Vieira da Silva. Ou com "tristeza", como desabafou Medina. Ou a pedir "reflexões" ao partido. Ou, na sua grande maioria, calados. Num silêncio cúmplice, comprometido, solidário ou cobarde.

E nenhum deles, dos mais próximos, no partido e no governo, "sabia de nada".

O PS foge de Sócrates como o diabo da cruz. Enquanto organização, percebe-se. Mas os homens do então líder estarem mudos ou consternados é a maior lição de contorcionismo político e de falta de decência pública.

Enquanto Sócrates teve o país e o partido aos pés, ninguém ousou perguntar, questionar, duvidar, levantar a voz.

Ninguém teve dúvidas. Ninguém estranhou ou desconfiou. O poder inebria e cega e ter poder absoluto, ter tido maioria absoluta, ser dono do país e do Estado, dos negócios e do sistema, ajudou a criar à volta do então líder uma aura de imortalidade e sapiência próprias apenas dos escolhidos.

O PS rendeu-se totalmente ao secretário-geral.

Hoje, quando Sócrates já não milita e é um homem só, todos os que fizeram parte dos seus governos, das suas direções no partido e os que beneficiaram com o poder absoluto de que dispuseram estão "envergonhados", "tristes" ou "incomodados".

Era bom que o partido fizesse a reflexão que devia, enquanto organização, mas era igualmente decente que quem suportou Sócrates fizesse também a sua parte.

Dizer que não se sabia de nada não chega. É pouco.

É este silêncio dos inocentes que também acaba por ser, ao mesmo tempo, o silêncio dos cúmplices.

Ainda que por omissão.

Jornalista

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