Ni vu ni connu: À peine venu ma tâche est finie.(Paul Valéry) . Se nós sabemos que a poesia só promete a quem a escreve aridez e solidão e que será através de leitores desconhecidos e improváveis que o poema se há-de abrir por fim a outros sentidos, porque razão lamentamos então que não se fale mais de poesia? Que adiantaria que se falasse dela?.Ana Luísa Amaral ganhou um importante prémio literário, de âmbito ibero-americano, e a reação dos media foi, de início, nenhuma. Lavrado o protesto por Isabel Pires de Lima, apontada por António Guerreiro a inevitabilidade desta omissão no presente ambiente cultural, apressou-se o jornal Público a cobrir a falta com uma boa e extensa entrevista feita por Luís Miguel Queirós. Mais vale tarde do que nunca....O caso de Ana Luísa Amaral confrontou-nos com a quase irrelevância da poesia no atual "campo literário" e a sua paulatina desaparição do espaço público. Não é fenómeno português: a circulação da poesia atual está em quase todo o mundo reduzida ao círculo restrito dos seus autores e dos seus especialistas..Tiveram razão os que se insurgiram contra o silêncio com que foi recebido o prémio de Ana Luísa Amaral, não porque outra coisa fosse de esperar dos media no que toca à receção de uma alta realização poética, mas porque a dimensão pública internacional do prémio levaria qualquer jornalista sensato a olhar com algum interesse para o acontecimento. Prémios Rainha Sofia não andam todos os dias por aí e há mais prémios importantes no mundo além do Nobel..Eça de Queirós nos Maias descreve o esforço falhado do jornalista Melchior para redigir uma notícia crítica sobre um livro de poesia. João da Ega diz-lhe então, afavelmente, que o jornalista só tinha de noticiar que o livro saíra, onde se vendia e quanto custava. E deixasse às revistas críticas a apreciação das obras literárias....Hoje não há quase revistas críticas em Portugal (o JL, a COLOQUIO, que mais?), mas os nossos jornalistas entenderam a observação de Eça/Ega e seguem-lhe o conselho. Noticiar o livro, contudo, deixou de tratar de apresentar uma novidade literária, passando a constituir simplesmente a divulgação de uma edição. Se sair mais uma tradução de Moby Dick, terá direito a mais páginas nos jornais do que qualquer nova obra de autor português. É justo: as obras consagradas permitem um juízo crítico sem riscos e uma promoção que não poderá ser acusada de publicidade enganosa..Não há estratégias perversas ou sofisticadas por detrás de tudo isto: as editoras já perceberam, através dos seus diretores de marketing, que a literatura não vende. Os romances resistem ainda um pouco, para salvar a honra do convento, mas a cotação da literatura anda por níveis que envergonhariam até os "lixos" dos ratings financeiros..Mas, do mesmo modo que no tempo dos bárbaros alguns monges copiavam laboriosamente os manuscritos dos poemas antigos, alguns permanecem a ler poemas e a escrevê-los, por sobre os tempos e através dos tempos. Não é a posteridade que eles pedem: é a sobrevivência de um trabalho sobre as palavras e a linguagem que só desaparecerá quando deixar de haver palavras e deixar de haver linguagem. Porque só a extinção da espécie humana poderá definitivamente remeter a poesia ao silêncio..Diplomata e Escritor