O significado da segurança do paracetamol na gravidez

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“Tempos difíceis têm valor

científico. São ocasiões que

um bom aprendiz

não deixaria passar.”

Ralph Waldo Emerson,

ensaísta, filósofo e poeta norte‑americano (1803-1882)

Assinalou-se, a 20 de janeiro de 2026, o primeiro aniversário da tomada de posse de Donald John Trump como 47.º presidente dos Estados Unidos da América (EUA). Nascido a 14 de junho de 1946, Trump já tinha sido o 45.º presidente dos EUA entre 2017 e 2021 e o atual mandato tem-se caracterizado por medidas polémicas, a nível nacional e internacional, com alterações marcantes na presença americana no mundo e, em particular, no equilíbrio geopolítico global. Sem nunca confundir a Administração Trump com a nação americana, Donald Trump será em breve julgado pelos seus concidadãos, ficando reservado à História o julgamento derradeiro.

Do ponto de vista científico e, em particular, da Saúde Pública, Robert Francis Kennedy Junior (RFK Jr.), há muito ligado a movimentos anticiência, foi nomeado para o cargo de secretário da Saúde e dos Serviços Humanos, equivalente a ministro da Saúde, onde tem demonstrado uma profunda ignorância, impreparação e incompetência, a par de um preocupante espírito revanchista.

Entre as medidas com maior impacto no presente e no futuro, RFK Jr. destituiu todos os membros do prestigiado e exigente ACIP (Advisory Committee on Immunization Practices), substituindo-os com base em critérios exclusivos de confiança e fidelidade pessoal. De referir que o ACIP é responsável por aconselhar políticas de Saúde e propor as recomendações oficiais de vacinação.

Um dos exemplos mais significativos da manipulação da ciência e da erosão da confiança em instituições americanas reconhecidas mundialmente ocorreu a 22 de setembro de 2025. Nessa data, Donald Trump, secundado pelo secretário da Saúde e dos Serviços Humanos, instou as mulheres grávidas a não tomarem o analgésico paracetamol, conhecido nos EUA como acetaminophen ou Tylenol®, alegando uma suposta ligação ao autismo, e apelou a que as grávidas “lutassem com todas as forças” para o evitar.

Trata-se de uma afirmação falsa, sem qualquer base científica e há muito esclarecida. Na Europa, por exemplo, continuou a ser recomendado o seu uso durante a gravidez.

Como seria de esperar, a ciência respondeu ao desafio. Uma equipa de investigadores, composta exclusivamente por europeus, publicou em janeiro de 2026, na respeitadíssima The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women’s Health, um estudo com o mais elevado nível de evidência, que confirmou de forma inequívoca a ausência de relação entre o paracetamol prescrito durante a gravidez e o autismo, a deficiência intelectual ou a perturbação de hiperatividade e défice de atenção. Uma pequena vitória da ciência, que simboliza a ignorância, o descrédito e identifica claramente quem vai nu.

Doutorado em Saúde Pública

e membro do Conselho Nacional de Saúde Pública

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