O senhor Manassés

Um bairro a sério tem os seus fantasmas. Conheci pessoalmente o senhor Manassés, o célebre barbeiro de Fernando Pessoa, na pequena loja de uma cadeira só, de madeira à antiga, sem ademanes, apenas com a possibilidade de fazer circular o assento, já que o artífice cortava cabelos e escanhoava barbas, sempre sentado em exígua cadeira. Tinha, quando o conheci, pouco mais de 65 anos, mas hoje vejo-o mais idoso. Vindo do liceu, passava à sua porta todos os dias. Quando lhe falavam do poeta, recordava-o cerimoniosamente, referindo-se-lhe sempre como "o senhor Pessoa". E essa invocação era um misto de respeito e veneração.

No mesmo quarteirão de Campo de Ourique, na Rua Coelho da Rocha, era a leitaria do senhor Trindade, fornecedor habitual do poeta e com uma larga conta corrente de vendas a fiado, com mensagem cifrada, regularmente diária: 28 mais 6. Hoje sabemos o que significava: um maço de cigarros e uma caixa de fósforos importavam em 28 centavos; e a dose diária de aguardente 6 tostões. Assim se animava uma noite de produção literária. Fernando Pessoa veio para o número 16, primeiro direito, da Coelho da Rocha em março de 1920, há 101 anos, ainda havia muita construção a fazer lá para baixo, para as terras do Sabido. Só nos anos 50 terminaria a urbanização da praceta... O poeta morou aqui até morrer, em novembro de 1935, no Hospital de São Luís dos Franceses.

O senhor Manassés conhecia bem a casa de Pessoa. O poeta assomava à porta do barbeiro e, vendo a cadeira ocupada, fazia um pequeno cumprimento, dava meia volta, atravessava a rua e ia para casa. A combinação estava feita. E lembra-se o excerto do Livro do Desassossego. "Entrei no barbeiro no modo do costume, com o prazer de me ser fácil entrar sem constrangimento nas casas conhecidas. A minha sensibilidade do novo é angustiante: tenho calma só onde já tenho estado."

As circunstâncias eram outras, mas o sentido é bem evidente. A calma de estar onde costumava ir era uma marca assumida em Bernardo Soares. Logo que se despachava, o barbeiro pegava nos utensílios necessários e ia ter com o habitual cliente. Antes, porém, de iniciar a função, limpava cuidadosamente os cinzeiros cheios de beatas, testemunhas dos debates criadores, arrumava algumas coisas em desalinho, sem perturbar os lugares sagrados onde o poeta escrevia, nem os livros que lia ou consultava. Por vezes, o senhor Manassés fazia-se acompanhar do filho António, o António Seixas, que viria a ser afamado eletricista do bairro, na loja que fora do pai, especialista em instrumentos de som, ressuscitador de pick-ups. Para o então jovem, o senhor Pessoa era reservado, falava muito pouco e era muito educado e atencioso.

E se falo de barbeiro, recordo o tal texto, da célebre arca, trabalhada por Maria Aliete Galhoz: "Quando me sentei na cadeira, perguntei, por um acaso que lembra, ao rapaz barbeiro que me ia colocando no pescoço um linho frio e limpo, como ia o colega da cadeira da direita, mais velho e com espírito, que estava doente. Perguntei-lhe sem que me pesasse a necessidade de perguntar: ocorreu-me a oportunidade pelo local e a lembrança. 'Morreu ontem', respondeu sem tom a voz que estava por detrás da toalha e de mim, e cujos dedos se erguiam da última inserção na nuca, entre mim e o colarinho. [...] Fez frio em tudo quanto penso. Não disse nada. [...] Caras que via habitualmente nas minhas ruas habituais - se deixo de vê-las entristeço. [...] Amanhã também eu - a alma que sente e pensa, o universo que sou para mim - sim, amanhã eu também serei o que deixou de passar nestas ruas, o que outros vagamente evocarão com um 'o que será dele?'."

Mas um bairro que se preza mantém vivos os seus fantasmas...


Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

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