O restabelecimento das relações israelo-americanas e a política para o Irão

As relações israelo-americanas passaram por fases diferentes durante os últimos dez anos, partindo do desacordo quase declarado sobre questões muito importantes. O discurso do ex-primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu no Congresso dos Estados Unidos contra o acordo nuclear com o Irão, durante a época do ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama, não está esquecido entre os democratas americanos, assim como a sua estreita ligação com Donald Trump depois disso.

O novo governo israelita está a tentar, obviamente, restabelecer relações com Washington nas mesmas bases que eram aceites por ambos os lados antes de Donald Trump chegar ao poder. Isso não vai ser fácil, porque os EUA estão a pressionar pelo regresso ao acordo nuclear com o Irão desde 2015, do qual Washington se retirou em 2018. A resposta iraniana ao movimento de Trump não trouxe estabilidade ao Médio Oriente, mas abriu possibilidades para Israel intervir militarmente onde e quando quiser. O governo democrático de Joe Biden quer decididamente restaurar algumas regras nas atividades israelitas nesse campo, não contradizer os seus esforços para trazer de volta o acordo nuclear, não tendo obviamente nada melhor em mãos do que este tipo de documento para conseguir algum controlo sobre as ambições nucleares do Irão.

O encontro entre os ministros dos Negócios Estrangeiros dos EUA e de Israel em Roma, há poucos dias, foi uma boa oportunidade para transmitir aos israelitas o que os EUA estão a fazer e até onde querem ir para restaurar o acordo nuclear. Isso não está a correr muito bem em Israel, que prefere ter as mãos livres para lidar com a República Islâmica, sabendo que sempre terá o apoio suficiente de Washington, aconteça o que acontecer, independentemente das críticas que venham dos americanos. Os EUA simplesmente não se podem dar ao luxo de deixar Israel sozinho.

Yair Lapid, novo ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel, está a tentar reparar as relações israelitas com base no bipartidarismo em relação aos dois grandes partidos políticos dos Estados Unidos. Isso terá um preço que se traduzirá numa coordenação muito mais forte para lidar com o Irão, especialmente no campo militar. Ao mesmo tempo, Washington não pode restabelecer o acordo nuclear com o Irão sem informar Israel com antecedência e obter do país algum tipo de aceitação. E tudo isso, superando todas as questões em aberto do passado e renunciando ao acordo nuclear atualizado, tem de acontecer antes de o novo presidente iraniano, Ebrahim Raisi, chegar ao poder dentro de cerca de 40 dias, pois ele pode trazer algumas pessoas novas, talvez não tão disponíveis para negociar com Washington.

É de se esperar que Israel tenha campo aberto para lidar com as instalações iranianas na Síria, evitando que o Irão se estabeleça ali. Outras atividades terão de ser analisadas através do acordo nuclear revisto, que pode estar a caminho de ser concluído dentro de relativamente pouco tempo.

O atual governo israelita terá de encontrar uma maneira de o introduzir nos partidos da coligação incluídos no governo, o que não será tarefa fácil. Outro bloqueio dos políticos israelitas no poder terá como único objetivo evitar qualquer crítica mais forte à política dos EUA no Médio Oriente.

Investigador do ISCTE-IUL e antigo embaixador da Sérvia em Portugal

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