O regresso da Índia mais de 500 anos depois

Quando, em 1998, Portugal quis festejar com a Índia os 500 anos da chegada de Vasco da Gama a Calecute, as autoridades indianas preferiram não o fazer. Esta comemoração era o motivo central da Exposição Internacional de Lisboa, no Oriente da cidade, com a ponte, a torre e o posterior centro comercial Vasco da Gama, ladeado pelas torres São Rafael e São Gabriel, o nome das naus com que os portugueses restabeleceram, depois de Alexandre, os contactos diretos entre europeus e indianos, desta vez, cruzando os oceanos.

Esses primeiros contactos em maio de 1498 são narrados n"Os Lusíadas, a primeira obra literária europeia sobre a Índia, cujo autor viveu na Índia e lá terá começado a escrever a epopeia que celebra justamente a descoberta do caminho marítimo entre a Europa e o subcontinente indiano. No entanto, nem o episódio da chegada à Índia faz parte dos excertos de análise obrigatória da obra no ensino básico e secundário português, nem a obra foi ainda traduzida para hindi, a principal língua oficial da República da Índia. Estes factos parecem ser paradigmáticos das difíceis ou distantes relações culturais e institucionais entre Portugal e a Índia, praticamente desde a sua independência em 1947.

Com efeito, por causa do Estado Português da Índia, com a capital em Goa, houve um corte das relações diplomáticas entre Portugal e a Índia logo em 1953 e, no ano seguinte, os territórios de Dadrá e Nagar-Aveli foram ocupados. Por fim, em 1961, já depois de as autoridades francesas terem cedido os seus territórios no subcontinente, e diante da impossibilidade de uma solução política, Goa, Damão e Diu foram ocupados pelas tropas indianas. Portugal só reconheceu a soberania indiana após o 25 de abril e a relações diplomáticas foram restabelecidas em 1975. Mas no final do século XX, como ilustra o episódio da Expo"98, a perspetiva portuguesa e indiana sobre o passado comum estava longe de ser convergente e/ou facilitadora de uma relação mais profunda.

Depois de restabelecer as relações diplomáticas em 1975, os dois países gradualmente elevaram as relações entre si e começou o processo de preservar a herança histórica, mas também estabelecer laços fortes para o século XXI. Nos últimos 5 anos os dois países receberam as visitas bilaterais dos primeiros-ministros e também de vários ministros e secretários de estado. O encontro dos chefes da UE e da Índia tem lugar no dia 8 de maio de 2021, infelizmente via online. Portugal tem sido um dos países que abertamente tem apoiado a candidatura da Índia para ser membro permanente do conselho de segurança das Nações Unidas, pois sem a presença da maior democracia do mundo quase 1/6 da população mundial não está representada.

Os dois países estabeleceram parcerias para lutar contra a pandemia covid-19. A Índia no início da pandemia em abril 2020 ofereceu 15 toneladas dos itens de proteção contra o novo coronavírus e até 2,5 milhões de comprimidos de hidroxicloroquina e Portugal por sua vez vai oferecer 5.500 frascos de Remdesivir e 20.000 litros de Oxigénio Líquido Medicinal por semana através do mecanismo da ajuda da União Europeia.

Hoje a Índia é um dos países mais jovens do mundo e não há instituições qualificadas suficientes para formar os milhares jovens de uma classe média que cada vez mais tem melhorado o poder de compra. Por sua vez Portugal tem uma excelente infraestrutura científica e os melhores recursos humanos (professores e investigadores) que certamente devem atrair os estudantes indianos para estudarem e investigarem em Portugal.

As relações históricas são uma herança comum dos dois países que se deve preservar e ao mesmo tempo deve-se pensar nos novos caminhos para fortalecer as relações económicas, académicas e culturais e esperemos que a reunião UE-Índia no dia 8 de maio tenha desenhado alguns planos concretos para que juntos possamos promover uma relação que seja benéfica mutuamente em todos as áreas para todos os membros da UE e para a Índia que certamente é um dos objetivos ambiciosos da UE sob a presidência portuguesa.

Shiv Kumar Singh é docente universitário na FLUL onde ensina hindi, culturas e história da Índia.

Paulo Feytor Pinto é i​​​​​​nvestigador integrado do Centro de Estudos de Linguística Geral e Aplicada (CELGA-ILTEC), da Universidade de Coimbra

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG