O radicalismo do PAN atenta contra o valor da vida humana

A poucos dias de entrar em campanha eleitoral, António Costa, na qualidade de candidato elegível a primeiro-ministro, decidiu abrir a porta a um entendimento pós-eleitoral com o PAN, caso precise desse apoio para assegurar a governação. Só que, infelizmente, esqueceu-se do óbvio: um governo minoritário será sempre melhor do que um governo que tenha o PAN a suportá-lo.

Existem hoje 24 partidos políticos em Portugal, com programas diferentes, conceções de vida em sociedade divergentes e visões diversas sobre direitos e liberdades. Como democrata convicto, considero que o debate democrático se faz de diferentes ideias e pontos de vista, o que contribui para o avanço e progresso das sociedades.

Contudo, no espectro político, há um partido diferente dos outros. De tal maneira diferente, que 98,86% da população portuguesa rejeitou votar nele, nas recentes eleições autárquicas. A esse partido, o PAN, António Costa decidiu estender a mão e promover a putativo parceiro de coligação, sem medir as consequências nefastas que tal gesto terá para o PS.

O PAN - e é preciso dizer isto de forma clara - não opera no mesmo quadro mental e de valores dos demais partidos portugueses. Apresenta-se como "o único partido animalista e não especista". Ou seja, é o único que proclama, com convicção, que não distingue espécies e, como tal, as pessoas e os demais animais estão no mesmo plano e devem ter os mesmos direitos, incluindo "a consagração constitucional do direito à vida". De forma simples, para o PAN, a vida humana vale o mesmo que a vida de uma vaca, de um cão, de uma galinha ou de um caracol. Esta é a razão pela qual qualquer partido político humanista não pode realizar com entendimentos com o PAN.

Todos os cidadãos que reconhecem o valor da vida animal - mas, que não é igualável ao superior valor da vida humana e a todos os valores e direitos que são inerentes, e que são próprios das pessoas e não dos animais - não podem admitir tal ideologia. Os animais não são coisas, mas, para mim, seguramente, não são pessoas.

Sendo inegável que o bem-estar e a proteção dos animais de pecuária devem ser estritamente assegurados - e são, pela legislação comunitária -, a lógica do PAN, tão clara e tão radicalmente oposta aos dos demais partidos, tem de ser, em si, uma linha vermelha: se a descriminação de direitos fundamentais entre seres humanos não é e não pode ser aceitável num quadro democrático, então uma ideologia animalista extremista que relativiza o ser humano e o coloca em igualdade de direitos com os demais animais também não pode ser tolerável.

Desengane-se quem considera o PAN um partido fofinho, de causas urbanas e trendy. É um partido radical na defesa de um mundo absurdo e inexistente. Espanta-me que nenhum outro partido, até hoje, se tenha indignado com tamanha desvalorização da vida humana. Se calhar, porque não levam o PAN a sério. Desvalorizam. Encolhem os ombros. Nada de mais errado.

Não é normal, na sociedade portuguesa, a ideia de que a pessoas e animais devem ser dadas as mesmas "condições jurídicas e políticas" para que "experimentem sensações e sentimentos de prazer, segurança, bem-estar e felicidade". Se as palavras têm algum valor, não cavar uma trincheira ou erguer uma muralha, contra quem pensa assim, é aceitar e normalizar um absurdo. A ideia da igualdade de direitos entre pessoas e animais é chalupa, mas também é muito perigosa. Por isso, admitir usar o PAN como apoio para a conquista do exercício do poder não é apenas uma ideia disparatada, é sobretudo uma traição às pessoas e à dignidade da vida humana. Há portas que não se podem abrir. E a do animalismo extremista é uma delas. No entanto, a sua normalização parece já ter acontecido. O erro foi esse. Mas vamos sempre a tempo de o corrigir.


Secretário-Geral da CAP - Confederação dos Agricultores de Portugal

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