O que será dos BRICs?

A grande imprensa ocidental, ocupada, ao invés de fazer jornalismo, em participar do esforço de guerra para, alegadamente, salvar a democracia na Ucrânia, não lhe deu a devida importância, mas nos passados dias 23 e 24 de junho estiveram reunidos em Pequim os representantes dos cinco países que compõem os BRICs: China, Índia, Rússia, África do Sul e Brasil. Penso não ser preciso realçar a importância dessa reunião num momento em que está em causa a possível reorganização geopolítica do planeta.

Desde o primeiro momento após a invasão da Ucrânia pelas tropas russas, nunca tive dúvidas de que, além das motivações claramente tribais do conflito, este tem a ver com a disputa geopolítica fundamental dos nossos dias, pós queda do Muro de Berlim: a implantação generalizada e total do unilateralismo, capitaneado pelos EUA com apoio da NATO (insisto: a União Europeia desistiu de ser um poder global autónomo), ou a afirmação do multilateralismo.

Os resultados das votações nos diferentes organismos das Nações Unidas acerca da guerra na Ucrânia, mostrando uma clara polarização entre o chamado Ocidente e o resto do mundo, mostram bem o que, de facto, está em jogo. Por isso, diplomatas europeus de plantão dizem-se preocupados com aquilo a que chamam "desinformação russa junto dos BRICs", como se as suas pressões sobre os países do Sul Global para levá-los a apoiar a destruição da Rússia (objetivo expresso claramente pelo chefe do Pentágono) não tivessem também uma componente declarada de desinformação. Veja-se a história do trigo da Ucrânia (talvez escreva especificamente sobre isso numa das próximas colunas).

Na sua declaração final, os representantes da China, Índia, Rússia, Brasil e África do Sul reiteraram o seu compromisso com o multilateralismo, defendendo o papel central das Nações Unidas dentro de um sistema internacional em que, entre outros objetivos, os estados cooperem para manter a paz e a segurança e promover o desenvolvimento sustentável. Para fortalecer o multilateralismo, os BRICs defendem uma maior participação dos países em desenvolvimento e menos desenvolvidos, especialmente africanos, no processo de tomada de decisões internacionais.

Na reunião de Pequim, os BRICs reafirmaram igualmente o seu apoio às reformas e ao reforço dos principais órgãos das Nações Unidas, em particular o Conselho de Segurança, a Assembleia Geral e o Conselho Económico e Social. Apoiaram em particular a aspiração da África do Sul, Brasil e Índia de desempenharem um papel maior na ONU.

Por outro lado, ressaltaram a importância da governança económica global para assegurar o desenvolvimento sustentável e defenderam a ampliação e fortalecimento da participação dos mercados emergentes e dos países em desenvolvimento na tomada de decisões económicas internacionais, assim como nos processos de definição de normas. Reafirmaram também a necessidade de um sistema multilateral

de comércio aberto, transparente, inclusivo, não-discriminatório e baseado nas regras estabelecidas pela Organização Mundial do Comércio. Os BRICs reafirmaram o seu apoio ao papel do G20 na liderança da governança económica global. "O G20 permanecerá intacto", sublinharam.

À luz da narrativa mainstream do Ocidente, exacerbada a pretexto da guerra na Ucrânia, de que o mundo vive um conflito entre democracias e autocracias, não faltarão aqueles que tentarão desvalorizar a importância dos BRICs. Sucede que essa narrativa é uma falácia, bastando, para comprová-lo, dois exemplos: o apoio das democracias ocidentais a algumas das ditaduras mais sanguinárias ainda existentes; e a gritante decadência da democracia, como estamos todos a assistir atualmente, no próprio país que tem servido de "modelo de exportação" do referido sistema.

Escritor e jornalista angolano
Diretor da revista África 21

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