O que sabemos da remodelação governamental

António Costa resolveu acrescentar uns esclarecimentos de política interna a uma entrevista, no Público, sobre o balanço da presidência portuguesa da União Europeia. Pressionado pela opinião publicada e pelo desgaste que essa pressão está a produzir na imagem que os portugueses têm do governo, o primeiro-ministro não se ficou por aí e pediu ao seu amigo Eduardo Cabrita que rompesse o silêncio a que se tinha votado, procurando retirar carga política ao acidente em que esteve envolvido o carro do ministro. O primeiro-ministro pode ser obrigado a fazer agora o que quer fazer, apenas, daqui a seis meses mas, mesmo perante uma inevitabilidade, não é de excluir que Cabrita saia sozinho e Costa mantenha a remodelação para o início do próximo ano.

A ideia de que há ministros fartos de estar no governo (Marta Temido pediu para sair e Augusto Santos Silva anuncia que não estará no próximo governo), aliada à percepção clara de que há ministros que são um desastre (Eduardo Cabrita), uma nulidade (Tiago Brandão Rodrigues) ou mesmo uma inexistência (Ricardo Serrão Santos) parecem aconselhar uma rápida e profunda remodelação, mas a urgência tem de se conciliar com a necessidade de levar a equipa remodelada até às eleições de 2023. Sem necessidade de ganhar um novo fôlego para disputar as próximas eleições (as autárquicas serão um passeio mais ou menos tranquilo para o PS), a tentação de António Costa será sempre a de substituir os ministros mais desgastados o mais tarde possível, procurando chegar às legislativas com a maioria do seu Executivo nas boas graças do eleitorado.

Em síntese, há meia dúzia de coisas que sabemos desta e de outras remodelações:

1 - As remodelações não se anunciam, desmentem-se até ao último momento.

2 - Esta remodelação é absolutamente necessária.

3 - António Costa quer adiar a remodelação para depois das autárquicas ou mesmo para depois do orçamento do Estado.

4 - A saída do ministro da Administração Interna acontecerá, ainda assim, contra a vontade do primeiro-ministro se a investigação provar que o MAI mentiu ou omitiu informações cruciais no comunicado que fez logo a seguir ao acidente na A6.

5 - As remodelações em fim de ciclo tendem a não resolver os problemas que as provocaram, confirmando a fragilidade que está subjacente aos adiamentos. É que a capacidade de recrutamento de novos governantes é proporcional à expectativa de duração de um Executivo.

6 - Essa expectativa de tempo está agora relacionada com a probabilidade do partido do governo ganhar as legislativas, mas também do primeiro-ministro se manter em funções.

É exactamente sobre este último ponto que os esclarecimentos pós-entrevista do primeiro-ministro são mais reveladores. Não garante que não vai "desertar de Portugal", expressão que usou em 2019, quando confirmou que recebeu um convite para assumir um cargo europeu. Lamenta que "na altura" não houvesse "condições" e, apesar de lembrar que "a água do rio raramente passa duas vezes por baixo da mesma ponte", acrescenta que não há cargos disponíveis na Europa "neste momento". O momento em que tudo, e cada coisa em particular, acontece é, aliás, o determinante de uma remodelação que até no interior do governo é desejada, mesmo entre governantes que sabem que vão ser despedidos. Em Belém suspira-se igualmente por uma clarificação, mas este é o tempo de António Costa. É ele que tem a faca do queijo na mão.

Jornalista

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