É comum ouvir por parte de muitos políticos que, quando alguma coisa corre mal ou não se coaduna com aquilo que julgam ser o melhor, é porque não está dentro da “ética republicana”. Pergunto-me muitas vezes o que querem dizer com esta expressão, pois, olhando à volta para muitos exemplos, de ética parece ter pouco. Vejamos um pormenor formal destas eleições presidenciais. Quantos são os candidatos? Se procurarmos pela internet, são dezenas de pré-candidatos. Mas, na realidade, só oito estão a ser chamados para os debates. Maioritariamente, aqueles que são suportados por partidos ou por políticos pertencentes a partidos. Verdadeiramente independentes, nem um: mesmo Gouveia e Melo tem, a suportar a sua candidatura, vários políticos que já pertenceram ou ainda pertencem a partidos. Destes oito, quantos já entregaram as assinaturas e formalizaram, oficialmente, no Tribunal Constitucional? Segundo consta, Catarina Martins sossegou quem dizia que ela não tinha todas as assinaturas, garantindo que iria entregar esta Quarta, dia 10, o mesmo dia escolhido por Gouveia e Melo. O que, tecnicamente, quer dizer que não são candidatos. Ainda. O mesmo se passa com Jorge Pinto. A bem da verdade, dos candidatos que vão debater à televisão nestas últimas semanas, os únicos que já entregaram as candidaturas formalmente foram Cotrim de Figueiredo (IL) e António Filipe (PCP). No entanto, Manuel João Vieira e Humberto Correia também já o fizeram. Mas não são chamados a debater. Qual a razão? Poder-se-á dizer que, oficialmente, têm até dia 18 de Dezembro para entregarem as assinaturas e formalizarem a candidatura. Mas o sistema está mal feito. Será isto ético? E se as candidaturas não forem aceites, seja porque as assinaturas não são reconhecidas, seja por outra questão formal qualquer? E aqueles que já as entregaram, qual a razão para não serem chamados? Será por não estarem ligados a partidos ou políticos influentes? É isto eticamente correcto? E a comunicação social, por qual razão dá apenas destaque aos candidatos do que podemos considerar “do sistema”, e não aos verdadeiramente independentes, mesmo com candidatura formalizada? É uma opção editorial? Não me parece justo; não há igualdade de oportunidades, não há um tratamento imparcial ou equânime. Os candidatos debatem sem serem formal, técnica ou oficialmente candidatos. Outros há que o são mas que não se lhes dão o mesmo espaço de exposição mediática. Será isso manipulação da opinião pública? Parece-me, mais do que desonesto intelectualmente, tendencioso. É um acaso de circunstâncias ou é assim feito conscientemente? Seja como for, pergunto-me: faz esta postura parte da tão proclamada ética republicana? Professora auxiliar da Universidade Autónoma de Lisboa e investigadora (do CIDEHUS).Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico