O presidente que come macarrão de pé

Dissidentes do bolsonarismo, como o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, o ex-secretário do governo, Santos Cruz, a ex-líder parlamentar, Joice Hasselman, ou o ex-deputado governista Alexandre Frota, classificaram Jair Bolsonaro, nas páginas do DN, de "desequilibrado", "cobarde", "psicopata", "burro", "execrável", "ignorante", "corrupto" e outros adjetivos da lavra de cada um. Mas o atributo comum às entrevistas de todos foi "incompetente". Parecia quase um cognome: Dom Bolsonaro I, O Incompetente.

A incompetência de Bolsonaro, já revelada nas anteriores profissões de militar e deputado, faz-se notar, desde logo, na economia: será o primeiro presidente a acabar o mandato com o salário mínimo a valer menos do que quando entrou e fustiga os brasileiros com a maior inflação em 28 anos.

Na educação, o seu terceiro ministro em três anos, aquele que defendia "universidade para poucos" e a exclusão de crianças com deficiência "por atrapalharem a aula", acaba de demitir-se após um escândalo de corrupção em que pastores, como ele, ofereciam verbas públicas a prefeitos em troca de barras de ouro para os seus evangélicos bolsos.

Na saúde, depois de atrasar por penosos meses a aquisição de vacinas anti-covid dos mais prestigiados laboratórios, decidiu finalmente comprar imunizantes, mas a empresas de vão de escada que não só não os tinham para vender como ainda negociavam uns milhões por fora.

A cultura está sob a tutela de um ministro vocalista da banda de forró Brucelose, de um secretário de Estado que faz tours aos EUA à conta do contribuinte para encontrar um lutador de jiu jitsu amigo, de um diretor racista de uma fundação contra o racismo e de um presidente de um instituto de apoio às artes que acredita que o rock ativa o aborto.

No ambiente, enquanto o presidente ataca o ator Leonardo DiCaprio, foram derrubados 1 012,5 km² de floresta em abril, um novo recorde absoluto.

Mas que Bolsonaro representava o retrocesso na economia, na educação, na saúde, na cultura ou no ambiente já todos avisáramos. A novidade é que até no único plano, a segurança pública, em que o defensor do lema "bandido bom é bandido morto" se dizia especialista, a sua proverbial incompetência prevaleceu.

No mês passado, um grupo de 30 criminosos aterrorizou a população de Guarapuava, no Paraná, num tipo de crime, chamado de "neo-cangaço" (quadrilhas que atacam cidades inteiras), em expansão no bolsonarismo - houve quatro casos em 2020 e 2021.

"Dada a bagunça completa na polícia, em que um plano estrutural de organização foi deixado de lado, são tragédias anunciadas", disse ao DN o professor Rafael Alcadipani, especialista em segurança pública da Fundação Getúlio Vargas. "Este governo fala demais e faz de menos".

Ora, se nem na área que dizia dominar Bolsonaro revela um pingo de capacidade, há algum motivo para votar nele, outra vez, em outubro? Há! Não um mas 111, diz o senador bolsonarista Chico Rodrigues, que listou feitos presidenciais diversos, como "o afastamento de 13 700 comunistas das universidades", "trabalhar, durante meses, com colostomia" e "ter "comido macarrão, em pé, com a faixa presidencial ao peito".

Comer macarrão em pé, eis a competência do presidente. E de competências extravagantes Chico Rodrigues, apanhado em operação da polícia federal de outubro de 2020 com 30 mil reais de dinheiro destinado ao combate à pandemia nas cuecas, entende.

Jornalista, correspondente em São Paulo

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