O povo sai à rua para celebrar o 25 de novembro?

De há alguns anos para cá, sempre que passa a data 25 de novembro, um conjunto de personagens de direita aparece a tentar fazer equivaler o golpe desse mesmo dia, ocorrido em 1975, com a Revolução iniciada no dia 25 de Abril de 1974 pelo Movimento das Forças Armadas. Há mesmo quem reivindique que se declare a data como feriado nacional.

É curioso reparar que esta tentativa de fazer ascender o valor político, social e cívico do 25 de novembro ao nível do 25 de abril começou a criar tração simultaneamente com a ascensão de duas novas forças políticas de direita: a Iniciativa Liberal e o Chega.

Antes disso, do ponto de vista partidário, é verdade que PS, PSD e CDS sempre defenderam a importância do 25 de novembro para a construção da democracia portuguesa, mas nem o CDS, então o partido mais à direita com representação parlamentar, se atrevia a fazer declarações públicas significativas que nivelassem o 25 de novembro à mesma altura de importância para o país que tem o 25 de abril.

Esta alteração qualitativa corresponde, portanto, a duas estratégias políticas: do lado da Iniciativa Liberal serve para tentar valorizar o seu papel como líder na direita "civilizada" na denúncia do "comunismo" ou do "socialismo", tentando assim tirar esse papel ao PSD; do lado do Chega serve para desqualificar o processo da construção democrática do país, bem como da classe política dali saída, para alegria dos seus militantes mais caceteiros ou mais salazaristas.

48 anos após o golpe do MFA, incrivelmente, ainda se reúnem, nas ruas, no dia 25 de abril, centenas de milhares de pessoas, grande parte delas nascidas depois desse acontecimento. São pessoas das mais variadas tendências político-partidárias, que festejam a conquista da liberdade e as ideias de fraternidade e igualdade que o hino/senha desse dia, "Grândola, Vila Morena", transformou numa definição da própria conceção do que deveria ser a democracia portuguesa.

Liberdade, fraternidade e igualdade são, para todos esses marchantes, os pilares que deveriam sustentar o edifício democrático e quer a Iniciativa Liberal, quer o Chega, rejeitam programaticamente, pelo menos, dois desses pilares: a fraternidade e a igualdade.

Mesmo assim, até a Iniciativa Liberal sente necessidade de celebrar na rua a Revolução dos Cravos, em defesa da liberdade que afirma valorizar.

Como é que IL, Chega e, possivelmente a reboque, outras forças de direita, querem, depois do 25 de novembro ter sido sempre ignorado durante 47 anos pelo povo (nunca vi uma manifestação com um mínimo de tamanho decente a celebrá-lo), tentar fazer agora com que esse mesmo povo adira a uma comemoração dessa data?

Mais: se o 25 de abril representa a esperança na liberdade, na fraternidade e na igualdade, que têm os promotores desta ideia a apresentar em favor do 25 de novembro que seja capaz de mobilizar a população a ir para as ruas, tal como se faz no Dia da Liberdade?

O povo, ao fim de quase meio século, sairia para celebrar o fim do processo revolucionário? Não me parece, além de que esse processo só terminou em 1976, com a aprovação da Constituição.

O povo sairia para celebrar a derrota do comunismo? Bem, o partido que o representa ainda anda aí e continua influente na sociedade portuguesa, tenho dúvidas.

O povo sairia para celebrar a instauração da democracia? Mas quantos é que não acham que foi o 25 de abril que, primeiro, nos deu essa democracia?

Há, ainda, um segundo plano desta gesta que a nova direita empreendeu: uma tentativa de escrever uma história ideológica do 25 de novembro que sustente os seus intentos. Vai ser difícil, porque também aí estão enganados.

Num debate com cinco historiadores que moderei na Câmara Municipal de Setúbal, a 21 de abril passado, António Costa Pinto (um historiador e politólogo que nada tem de radical de esquerda ou de comunista) foi bem explícito sobre o estado da investigação académica ao 25 de novembro, como se lê na reportagem que, no dia seguinte, o DN publicou e onde se leêem estas suas frases: "O 25 de novembro foi efetivamente feito pelas forças democráticas moderadas. O 25 de novembro não representa sequer uma vitória da direita radical, nem uma restauração de memória mais positiva do salazarismo".

E a concluir, António Costa Pinto ainda disse isto: "A ideia passada de que o 25 de novembro foi uma tentativa do PCP para tomar o poder não é verdade, sabemos isso hoje".

Jornalista

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG