O poder da palavra. Ou a pedagogia necessária

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Ao longo deste meio século de democracia fomos, erradamente, dando por adquiridas opções que a História demonstra que nunca o estão em definitivo.

Na vertigem dos compromissos eleitorais que a realidade quotidiana impõe que se assumam, nas respostas às questões que a espuma dos dias suscita ou perdidos na miríade de “informação” que invade as redes sociais, esquecemos o essencial.

E, o essencial, é sempre o regime democrático e os seres humanos que o habitam e dele usufruem.

E é por isso que a defesa da liberdade, colectiva e individual, tem de voltar ao centro do discurso político.

Também, pelas mesmas razões, os Direitos Humanos, os de sempre e os novos, devem ser centrais no nosso quotidiano. Não enquanto declaração tonitruante e genérica, antes enumerando cada um deles, na aplicação às situações concretas da vida.

Igualmente é preciso ser claro na pedagogia de que, tendo os portugueses muitas formas de participação na vida colectiva, formas que devem ser estimuladas, o país optou pela democracia representativa para determinar quem assume responsabilidades de condução e direcção da res publica.

Da mesma forma é preciso afirmar, sempre e todos os dias, que, em democracia, as votações, nomeadamente as maioritárias, dão legitimidade, não dão razão. E, sobretudo, que somos todos iguais em direitos e deveres, ainda que todos diferentes na individualidade imanente ao ser humano.

A afirmação, sem restrições ou preconceitos, da dignidade da pessoa humana é pedra-base na pedagogia democrática quotidiana.

Não a dignidade enquanto abstracção geradora de fantasiosas e discursivas unanimidades, mas a dignidade de cada um, do mendigo ou do quadro superior, do sem-abrigo ou do trabalhador qualificado, da mulher vítima de violência doméstica ou do juiz.

A pedagogia da dignidade da pessoa humana é, ela própria e por si só, a pedagogia da liberdade, da igualdade e, consequentemente, da democracia.

E não há tempo a perder.

O poder da palavra é, a meu ver, o mais importante poder de um político e esse poder deve estar, tem de estar, sempre ao serviço da pedagogia da democracia.

Advogado e gestor

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico

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