O 'partenaire'

Dmitry Medvedev disse, recentemente, que o projecto de Putin " é criar uma Eurásia aberta - de Lisboa a Vladivostok." Medvedev tem sido o partenaire de Putin, uma espécie de "alternante" no exercício e distribuição do poder em Moscovo. É primeiro-ministro, quando Putin é Presidente e é Presidente quando Putin é uma outra coisa qualquer. E é, naturalmente, um oligarca, riquíssimo, entre outros tantos que proliferam no Kremlin.

Embora a Euroásia seja um projecto comercial, não deixa de ser um desplante a declaração de Medvedev, num momento em que ao mundo chegam notícias da barbárie e dos massacres praticados pelo exército de Putin, em Bucha.

Com notícia da eventual presença de elementos militares chechenos e mercenários da Wagner em Bucha, as tropas de Putin deixaram um rasto de violação das mais elementares regras dos códigos de ética da guerra. Violações, execuções sumárias, ataques a civis indefesos, civis abatidos à queima-roupa, a morte andou por ali com "carta branca", onde não faltaram os saques e o roubo de todo o tipo de bens. Foi um fartar vilanagem!

Descansem os que, no universo do comentário e das redes sociais, "pedem uma investigação independente". Sim, descansem, haverá uma investigação do Tribunal Penal Internacional, as provas serão recolhidas, os criminosos identificados e levados à barra da Justiça mundial, logo que isso seja possível.

Apesar das evidências que todos os dias nos entram pela casa dentro, nas televisões, os que, como o PCP, duvidam dos crimes de guerra, seguindo a narrativa orwelliana de Putin, esquecem que esta é a agressão mais escrutinada de sempre. As provas do comportamento criminoso do exército de Putin são recolhidas em tempo real, e colocadas nas redes sociais. A família, os vizinhos, os amigos, os cidadãos, fotografam e fazem vídeos do exercício do terror. O que, diariamente, constatamos no conforto das nossas casas, nos trabalhos dos enviados especiais dos meios de comunicação social, nos depoimentos recolhidos, no registo dos satélites, trazem até nós a realidade do que é o modus operandi de Putin, o que aliás não constitui novidade. Lá longe, há tempos, ouvimos falar da destruição de Alepo, da violação dos direitos humanos em Grozny, na Chechénia. A metodologia de guerra aplicada na Ucrânia é a mesma e já, sobejamente, conhecida. Não há aqui qualquer novidade. Há uma coerência do terror!

Perante tudo isto chega-nos pois essa "galvanizante" proposta de uma "Euroásia de Lisboa a Vladivostok". Calculo o que possam pensar alguns dos povos que ficam na trajectória desta Euroásia de Medvedev. Imagino o que o povo polaco possa pensar disto, eles que conhecem bem o peso da bota soviética. Ou a República Checa que ainda deve ter na memória a entrada dos tanques soviéticos em Praga. Ou, ainda, os que viveram na Alemanha Oriental e em Berlim Oriental fechados em muros, que durante décadas sentiram a escassez de bens essenciais, sem liberdades e sob um regime fortemente militarizado. Talvez toda esta gente fique com um arrepio na espinha ao pensar no projecto Euroásia do partenaire Medvedev, mesmo de configuração comercial.

Não sei o que a Europa terá a dizer a tudo isto, mas tenho a ideia de que a melhor maneira de acabar com as veleidades dos projectos Euroásia e quejandos, sejam eles comerciais ou militares, é travar o imperialismo de Putin na Ucrânia. E fazê-lo de uma forma definitiva, assertiva. A Europa e os Estados Unidos têm de "gelar" economicamente Putin. A maneira de o fazer é terminar com todas as importações de gás, carvão e petróleo, e acabar com o financiamento diário de cerca de 800 milhões de dólares que têm alimentado a máquina de guerra de Putin. A Alemanha e a Áustria, países mais atingidos pela suspensão do gás russo, terão de fazer sacrifícios. O que aconteceu em Bucha e o que, provavelmente, vamos constatar, dentro de dias, em Borodyanka e em Mariupol, mais do justifica a redução de 1% a 3 % por cento do PIB alemão que se perderá pelo fim das importações de gás, petróleo e carvão, da Rússia.

Pelo que disse Medvedev, percebe-se bem o que vai na cabeça de Putin e dos que o rodeiam. Travá-los, a eles e às suas ambições, vai ser uma das principais tarefas dos que defendem a liberdade e os valores civilizacionais do Ocidente. E, neste objectivo, a União Europeia não pode deixar de ser a lanterna que vai à frente.


Jornalista

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