O pára-arranca que nos deixa para trás

Nas últimas dezenas de anos Portugal tem seguido consistentemente uma política económica de pára-arranca que nos tem atrasado em relação aos restantes países europeus e que tem vindo a anular a vantagem que tínhamos em relação a alguns dos mais pobres. Já estamos nos últimos lugares e num futuro não muito longínquo estaremos mesmo na cauda da Europa. Um lugar que já ocupámos no passado.

O pára-arranca português caracteriza-se por se iniciar com uma crise internacional que reduz o nosso Produto Interno Bruto mais que proporcionalmente em relação a outros países e segue com uma recuperação mais lenta e insustentada que nos conduz ao fim de pouco tempo a nova crise e nova retração do PIB. Depois da crise de 2011 Portugal recuperou muito lentamente e quando pouco ultrapassava os níveis económicos de 2011 mergulhou noutra crise, desta vez provocada pela errada reação à pandemia imposta pela União Europeia.

Os políticos portugueses mostram-se incapazes de perceber os mecanismos que aprisionam a nossa economia neste pára-arranca e de tomar as medidas para os alterar. Deitam foguetes com qualquer mínima recuperação mesmo que esta seja insustentada e base para nova crise.

Estamos em plena crise, à beira de uma crise da dívida que nos conduzirá a nova e mais violenta onda de austeridade, mas o governo exulta com um magro crescimento que ainda não repôs os níveis de 2019 e quando os dados internacionais apontam que sejamos dos últimos a conseguir essa reposição.

Continuam apegados à fórmula dos baixos salários e produção industrial por empresas estrangeiras destinada à exportação, sem perceber que essa é a causa do nosso empobrecimento.

Como produzimos para exportação a nossa recuperação é mais lenta porque temos de esperar que os outros recuperem e possam de novo comprar o que as suas empresas fazem em Portugal. É insustentável porque qualquer pequeno choque nas economias centrais se transforma num forte abalo sísmico em Portugal.

Esta fórmula exige 20% de pobres e dezenas de milhares de emigrantes por ano. Esta fórmula não permite desenvolver empresas portuguesas fortes e autónomas antes exige um tecido de pequenas empresas subcontratadas por multinacionais.

Esta fórmula não permite ter serviços de saúde que sirvam os portugueses. Por isso a mortalidade por Covid em Portugal é tão elevada quando comparada com muitos países asiáticos.

Criam-se mitos em vez de respostas adequadas aos problemas. Por exemplo atacam-se os Estados Unidos porque milhões de pessoas não têm acesso a sistemas de saúde. Na verdade são cerca de 60 milhões de pessoas nessa situação. São muitos. É uma situação deveras desumana. Representam 8,5% da população dos Estados Unidos. Na Europa Central é muito diferente, a cobertura de saúde é universal. Em Portugal, em contrapartida, cerca de 1 milhão de pessoas não tem médico de família. Representam 10% da população. Ou seja a situação portuguesa é pior que a dos Estados Unidos. Mas isso não impede os nossos políticos de elogiar o sistema que criaram nem de criticar o americano. A falta de cultura e de informação leva que esta falácia passe em claro.

É esta falta de escrutínio, esta opacidade, que nos conduz anestesiados pela vereda estreita do declínio. Mas é facto muitas vezes comprovado que estas fases de declínio e empobrecimento prolongado e constante desaguam em revoluções violentas mas revigorantes. Que futuro queremos?

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