O Papa Francisco e a voz dos silenciados

Nesta semana mereceu amplo destaque o início de funções da comissão independente para o estudo de abusos sexuais na Igreja Católica, promovida pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) e liderada por pedopsiquiatra Pedro Strecht. Trata-se de uma iniciativa corajosa e transparente, tendo sido conferida à referida comissão independente, composta por membros de elevada idoneidade, credibilidade e competência técnica, total autonomia na investigação de todos os casos de abuso sexual ocorridos no seio da Igreja desde 1950.

Esta decisão, insisto, corajosa por parte da CEP deve ser lida no contexto mais vasto da liderança reformista protagonizada, desde 2013, pelo Papa Francisco, não apenas no que diz respeito à organização e doutrina da Igreja, mas também na tomada de posições de grande alcance político. Vale a pena recordar o seu papel fundamental na aprovação do Acordo de Paris para as alterações climáticas, através da publicação da encíclica Laudato Si' - Sobre o Cuidado da Casa Comum, em 2015, e da pressão que colocou nos negociadores internacionais. Lembro-me bem do impacto do convite que dirigiu, aos Ministros do Ambiente da UE, na qual tive a honra de participar em 2015, para discutir os requisitos de negociação que dotasse o Acordo de Paris da ambição necessária para limitar o aumento da temperatura a 1,5º C e da solidariedade imprescindível com os países mais pobres. Como vale, igualmente, a pena recordar o seu papel na retoma das relações diplomáticas entre os Estados Unidos e Cuba; na defesa dos refugiados e na denúncia do fracasso moral da comunidade internacional perante a morte de mais de 20 mil migrantes na travessia do Mediterrâneo; ou ainda no papel da fraternidade e da solidariedade com as pessoas mais vulneráveis e mais expostas às consequências sanitárias, sociais e económicas da pandemia de covid-19, sublinhado na recente encíclica Fratelli Tutti. Nesta encíclica, o Papa Francisco sublinha o paradoxo de um mundo que, tendo-se revelado mais interligado e mais interdependente do que nunca, gerou uma resposta à pandemia que alargou a fragmentação e as desigualdades entre países.

Além deste papel inconformista perante os grandes desafios internacionais, importa destacar o amplo processo de reforma da Igreja Católica que acaba de ser lançado por parte do Papa Francisco e que alguns consideram o mais ambicioso dos últimos 60 anos. Esta reforma será precedida de um inédito processo de consulta descentralizada, a decorrer até outubro de 2023, durante o qual os membros da Igreja - religiosos e leigos - poderão dar a sua opinião sobre as mudanças a ponderar "sem ideias prefabricadas, sem preconceitos ideológicos e sem rigidez", incluindo sobre temas mais fraturantes como a ordenação de mulheres e o casamento de padres.

É, precisamente, à luz desta perspetiva reformista e de proximidade com as pessoas, que merece ser lida a mudança que o Papa Francisco introduziu na forma como a igreja passou a gerir o chocante escândalo de abusos sexuais sobre menores. Em todas as suas intervenções e decisões, assumiu uma inabalável defesa das vítimas e um combate intransigente a estes crimes. Em 2019, eliminou o segredo pontifício sobre os casos de pedofilia e impôs o dever geral de cooperação da Igreja com as autoridades de justiça. E, não só apoiou a criação de comissões independentes para a avaliação dos casos de abuso sexual, como não hesitou em assumir que o relatório independente recentemente publicado em França, que aponta para a existência de mais de 300 mil casos, "representa um momento de vergonha". Agora que arranca, também em Portugal, o trabalho da comissão independente promovida pela CEP, importa que todas as condições sejam asseguradas para que, no decurso deste ano, os especialistas trabalhem com toda a tranquilidade e serenidade necessária, beneficiando não apenas dos meios técnicos necessários, mas também do acesso a todas as informações imprescindíveis, não apenas facultadas pelas vítimas, mas também pelos arquivos diocesanos.

Presidente do think tank da Plataforma para o Crescimento Sustentável

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