O país que eu gostava

Estamos a viver uma época muito estranha, com grandes acontecimentos que têm condicionado aquilo que considerávamos ser uma vida normal. Depois de termos passado por um período de grande sofrimento económico e financeiro, a que vulgarmente chamamos o período da troika, fomos confrontados com dois anos de pandemia e, desde o princípio deste ano, com uma guerra.

Passámos por provações e por grandes dificuldades e os governos de Portugal tiveram de tomar medidas para ultrapassar as crises sucessivas que fomos vivendo. Sempre que esses governos tiveram o cuidado de pedir à população portuguesa a colaboração que era necessária para fazer frente aos efeitos provocados por essas várias crises, foi unânime a reação posterior de reconhecimento da enorme capacidade que este povo tem de ser responsável, capaz de se unir para resolver os problemas que afetam a todos e ao nosso país.

Ainda assim, houve sempre a tentação de mandar e, provavelmente com medo de não serem capazes de assegurar esse extraordinário comportamento responsável por parte da população, os nossos governantes foram cedendo ao fácil condicionamento da nossa liberdade em prol daquilo que foram chamando o bem maior da sociedade. Colocaram a segurança à frente da liberdade. Condicionaram a liberdade para conseguir a segurança. Não chamaram a sociedade civil a assumir as suas responsabilidades perante as situações difíceis que tínhamos de ultrapassar, mas que prejudicavam essencialmente essa mesma sociedade civil.

Hoje estamos a viver um período de guerra, terrível e injusta, que terá, sem dúvida, efeitos graves sobre a nossa maneira de viver. A escassez de produtos, o aumento do custo da energia, a inflação, a quebra de exportações e a dificuldade de importações, com países a limitarem as suas exportações, vão tornar a vida dos portugueses numa realidade mais difícil, mais cara e, por isso, uma vida pior. Seria por tudo isto natural envolver a população portuguesa, a sofredora de todos estes condicionamentos, nas decisões que virão a ser necessárias, para evitar que os resultados desta guerra sejam ainda mais dolorosos.

Seria apenas natural que o governo tivesse já reunido todas as organizações da sociedade civil para com elas preparar a nova forma de reagir às suas consequências. Determinar que esforços deveriam ser feitos em cada sector de atividade - aumento e diversificação da produção agrícola, industrialização, etc... - e promover que esses agentes da sociedade portuguesa se assumissem como responsáveis por assegurar comportamentos que resultem em soluções de sobrevivessem e mesmo de crescimento durante a crise.

No fundo, acreditar que a ajuda do povo português, tanto na decisão como no comportamento, será a ferramenta mais eficaz no combate aos danos que provocará esta guerra, e com a consciência de que não é tratando toda uma população sem respeito e com paternalismo que vamos conseguir ultrapassar da melhor forma as dificuldades. Pelo contrário, é incluindo a sociedade civil na determinação da solução que poderemos ser capazes de nos preparar da melhor maneira possível para ultrapassar esta crise.

Em Portugal somos cerca de dez milhões de habitantes que, organizados de uma forma em que todos nos sintamos acolhidos, participantes e responsabilizados, teremos uma capacidade extraordinária de fazer frente a esta situação. Pelo contrário, ao não envolver a sociedade civil, o governo reforça a divisão da sua população em grupos de apoio e contra as decisões governativas e perde capacidade e competência para assumir os esforços que serão obviamente necessários neste tempo.

Temos um povo responsável, consciente e colaborante, mas os nossos líderes têm medo de perder se confiarem nele. Se dermos o poder de participar a este povo teremos o país que eu gostava - e que provavelmente todos gostaríamos.


bruno.bobone.dn@gmail.com

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